A Revolução dos Bichos – George Orwell

a-revolucao-dos-bichos (525x800)Já havia falado no blog sobre a magnum opus do George Owell, um dos escritores mais famosos e influentes do século XX, o fantástico livro 1984, e, obviamente, não poderia também deixar de falar em outro livro do autor, um que para muitos leitores é considerado uma leitura quase que obrigatória e tão boa como 1984, é a fábula política A Revolução dos Bichos.

Publicado em 1945, o livro foi escrito com uma linguagem completamente simples, para que qualquer pessoa em qualquer lugar do mundo pudesse interpretar a mensagem de uma forma clara. É uma grande sátira do stalinismo em forma de fábula e critica, sobretudo, o totalitarismo e o caminho que as coisas podem tomar, de como uma ideia pode se desvirtuar da sua concepção original. Não entrarei em debates políticos, divirjo um pouco de alguns pontos e sou até bem crítico ao socialismo, e ficarei focado na crítica do livro e não na política em si, mas tenham em mente que apesar de ser voltado a qualquer regime ditatorial que oprime a população, é baseado no que aconteceu na URSS de Stalin e não dá pra fugir disso. Também acho válida essa ideia de que nem sempre uma coisa dita como boa vá se demonstrar ser realmente benéfica, ou que boas intenções se manterão sempre assim. Já diziam que “o poder corrompe e o poder absoluto corrompe absolutamente”, e assim também penso, ou se preferirem outra citação do saber popular, “de boas intenções o inferno está cheio”, por isso é vital ficar de olho nos nossos representantes e também não acreditar piamente em salvadores cheios de promessas, ficando cego por esse vislumbre de esperança desesperada, afinal a própria esperança pode destruir e aprisionar tanto quando o medo. Dito isto, vamos ao livro em si.

A história se passa em uma granja no interior da Inglaterra, a Granja do Solar. Um velho porco, conhecido como Major, conta a todos aos animais da granja sobre seus ideais, sobre a exploração dos bichos pelo dono, o Sr. Jones, e sobre como seria um mundo sem o homem. Esses ideais mais tarde foram organizados em um sistema de pensamento ao qual eles chamaram de Animalismo. Os animais se revoltam contra os donos e tomam a granja em uma insurreição, a renomeando como “Granja dos Bichos”.

“O que quer que ande sobre duas pernas é inimigo, o que quer que ande sobre quatro pernas, ou tenha asas, é amigo. Lembrai-vos também de que na luta contra o Homem não devemos ser como ele. Mesmo que o tenhais derrotado, evitai-lhe os vícios. Animal nenhum deve morar em casas, nem dormir em camas, nem usar roupas, nem beber álcool, nem fumar, nem tocar em dinheiro, nem comerciar. Todos os hábitos do Homem são maus. E principalmente, jamais um animal deverá tiranizar outros animais. Fortes ou fracos, espertos ou simplórios, somos todos irmãos. Todos os animais são iguais.”

Para facilitar a vida dos animais, os princípios do Animalismo foram resumidos em sete mandamentos, que foram escritos em uma parede para que todos pudessem ver quando quisessem, e eram os seguintes:

  1. Qualquer coisa que ande sobre duas pernas é inimigo.
  2. O que andar sobre quatro pernas, ou tiver asas, é amigo.
  3. Nenhum animal usará roupa.
  4. Nenhum animal dormirá em cama.
  5. Nenhum animal beberá álcool.
  6. Nenhum animal matará outro animal.
  7. Todos os animais são iguais.

Já que nem todos os bichos aprenderam a ler ou conseguiam se lembrar de todos os mandamentos, o porco Bola-de-neve, que era um dos líderes dos animais, resumiu os sete mandamentos em uma máxima: “Quatro pernas bom, duas pernas ruim”. Aliás, não era só Bola-de-neve que tinha um papel de liderança forte entre os bichos da granja, mas os porcos, que eram mais inteligentes que os demais animais, eram aqueles que tomavam para si as atividades que exigiam mais raciocínio e tinham essa confiança dos outros bichos nas questões mais burocráticas e nas de comando. Porém o que prometia ser uma comunidade igualitária não tardou a apresentar os primeiros sinais de que não seria uma nova sociedade tão justa assim como imaginavam. Os porcos não tardaram a se aproveitar dessa posição de liderança e começaram a receber uma quantidade de alimentação maior, alegando que seu trabalho era vital para a manutenção da Granja dos Bichos e que sem eles o Sr. Jones e a antiga vida voltariam, usando o medo para manter sua posição privilegiada. A partir daí não demorou muito para que a utopia se demonstrasse uma distopia, com a exploração sendo mais terrível do que era quando os humanos estavam no poder, porém dessa vez era ainda pior, pois a exploração vinha de seus semelhantes. Era uma tirania em um disfarce de liberdade.

Para analisar alguns pontos importantes da obra talvez eu devesse, antes de tudo, começar pelo antropomorfismo, que salienta bem através das características animais alguns comportamentos que os humanos também acabam tendo. O que é melhor para representar um grupo feroz e obediente do que cães treinados? Um trabalho incansável, exploratório e com os trabalhadores sendo submissos a quem está em uma posição de comando superior a eles pode muito bem ser comparado ao trabalho dos cavalos que puxam arados. Além disso, as figuras no livro representam personagens e grupos que faziam parte desse período na URSS e que são fundamentais para entender o que aconteceu naquela parte do mundo nessa época: O fazendeiro Sr. Jones representaria a burguesia ou mesmo o czar Nicolau II. Os cavalos são a força trabalhadora (proletariado) que não contestam o líder e o admiram acima de tudo, seguindo suas ordem de uma maneira cega. As ovelhas, sobretudo, são a massa de manobra, sempre balindo a máxima “Quatro pernas bom, duas pernas ruim” como um mantra, não pensando ou não querendo pensar em nada, apenas isso era a resposta para tudo e era o suficiente para elas, que eram os bichos mais fáceis de dominar. O corvo representa o clero. Os cães, doutrinados desde jovens e extremamente fiés ao seu líder eram a força militar/policial. A égua vaidosa, Mimosa, pode ser vista como a classe média, e Benjamim, o burro, pode ser visto como aquela parcela da população que vê as manipulações, as mentiras, as farsas e que ficam alheios a isso tudo e decidem não fazer nada a respeito, aceitando sempre com pessimismo a situação atual.

Vamos dar mais destaque aos porcos que são caricaturas de grandes nomes do comunismo, como o Major que representa a figura de Marx, com seu sonho e os ideais que foram base para o Animalismo. Napoleão é óbvia referência a Stalin, e o próprio nome escolhido para ser o do porco já indica a sede de poder. As perseguições e execuções, o culto a imagem do grande Líder, reescrever a História de acordo com seus interesses, levar os bichos a um estado de fome e exaustão, de medo constante, os desfiles demonstrando poder, etc. Bola-de-neve, que sempre divergia de Napoleão e dividia as atenções e o poder de influência, teve a ideia de modernizar a granja construindo um moinho. Napoleão sendo contra e vendo que a maioria estava com o outro porco botou o rival para correr com ajuda de seus leais, e ferozes, cães. Mais tarde o despótico Napoleão resolveu colocar em pratica a construção do moinho de vento, com Garganta manipulando os animais a fim de induzi-los a crer que na verdade sempre foi ideia de Napoleão, e o fato dele ser contra apenas era um ardil para se livrar do nocivo Bola-de-neve. Mais tarde a queda do moinho fora atribuída a Bola-de-neve, ele, por sinal, acabou virando um bode expiatório para todo e qualquer problema que ocorria na Granja dos Animais, e além disso, foi acusado de ser aliado de Jones desde o princípio, um verdadeiro traidor, o que deixou todos as animais alarmados e assustados. Bola-de-neve lembra muito o Goldstein de 1984, com a criação de um inimigo para colocar a culpa, distrair e controlar o povo através do medo, não é à toa que ambos os personagens foram inspirado em Trotsky. Já o porco Garganta não é inspirado em uma pessoa, mas em uma ferramenta, é a propaganda, manipulando o povo com informações falsas e reescrevendo a História (ou a parede), assim como Stalin fez com Trotsky apagando ele das fotos e mudando sua participação na história da revolução. Ele a todo momento tem o poder de convencer os outros, de fazê-los crer que os benefícios, cada vez maiores para os porcos enquanto o resto passava por várias privações, era na verdade para o bem de todos os bichos da granja, e que a situação atual era muito melhor do que quando eram escravos de Jones.

“De certa maneira, era como se a granja tivesse ficado rica sem que nenhum animal tivesse enriquecido – exceto, é claro, os porcos e os cachorros.”

O hino criado pelo porco Major, “Bichos da Inglaterra”, é um ponto importante a ser discutido. Hinos unem as pessoas, doutrinam, esses cânticos repetidos como mantras para entrarem profundamente no ser das pessoas, ou no caso do livro, dos bichos. Criam também além dessa sensação de unidade uma forma de passar uma mensagem de forma fácil. Já notaram que geralmente são cantados em grandes grupos? Isso reforça a impessoalidade, sabe-se que em agrupamentos mais amplos a consciência individual tende a ser diluída em favor do pensamento de grupo, e isso, obviamente, impede que haja revoltas ou pensamentos conflitantes com aquele que é passado. As pessoas quando estão em grupo se tornam mais suscetíveis a serem controlados de alguma forma, principalmente se for usado algum discurso inflamado que pega pelo lado passional e deixa o racional de lado. É o famoso “ir com a galera”. Não é de se estranhar que esses símbolos de unidade sejam usados como propaganda para atrair, manter e controlar pessoas, e os nazistas faziam isso muito bem, seja com seus símbolos pintados em bandeiras, com seus uniformes, com sua ‘nova mitologia”, e até com suas grandiosas marchas e desfiles opulentos para demonstrar poder. Outros símbolos vistos no livro eram os próprios desfiles em homenagem a Napoleão, as medalhas que criaram, e um dos mais interessantes, a bandeira que consistia em um casco e um chifre em branco em um fundo verde, símbolo da Granja dos Bichos e da própria revolução em si. O hino foi posteriormente abolido justamente para que não incitasse rebeliões, agora não mais contra a opressão dos humanos, mas da opressão dos porcos que comandavam a granja.

Cansaço, fome, medo e pressão psicológica fragilizam e deixam as pessoas mais suscetíveis ao controle, é uma tática de lavagem cerebral, que inclusive já foi usada pelos soviéticos na Guerra Fria, assim como outros diversos povos ao longo da História, e explica o motivo dos animais serem tão suscetíveis aos caprichos dos porcos, embora no caso do livro pode-se tratar de forma mais simples, como sendo essa a natureza de alguns animais, ou mesmo de uns serem mais simplórios que outros, mas com os humanos na vida real esses são fatores que influenciam muito na hora de deixar alguém mais inclinado a acatar uma opinião/ideal/conceito/etc, e aceitar com todo o coração. No limiar da consciência, colocando a pessoa no limite, onde quase não se consegue suportar toda a carga física e psicológica sem enlouquecer de fato, nesse ponto a resistência está baixa é a sugestionabilidade é alta. Tensão psíquica alta, apreensão, privações de sono e de comida, incerteza e medo causam uma confusão mental e não é de se espantar que vários animais confessassem que eram agentes de Bola-de-neve, mesmo com alegações absurdas, como a das galinhas que diziam que Bola-de-neve lhes instigara a desobediência à Napoleão através de sonhos, algo que também é visto em 1984.

“As criaturas de fora olhavam de um porco para um homem, de um homem para um porco e de um porco para um homem outra vez; mas já era impossível distinguir quem era homem, quem era porco.”

Esse trecho acima, talvez o mais forte e impactante do livro, mais do que uma forma de colocar que os porcos se tornaram semelhantes a aqueles e a aquilo contra o que se lutou, uma imagem da desvirtuação da mensagem inicial e do poder que corrompe e transforma, é na verdade uma é uma referência sarcástica do autor ao encontro de Teerã, ocorrido em 1943, na época em que ele escrevia o livro, onde se encontraram Winston Churchill, o primeiro ministro do Reino Unido, Franklin D. Roosevelt, presidente dos EUA e Josef Stalin, o líder da URSS e a inspiração para o porco Napoleão.

Quantas revoluções não se mostraram piores ao estado que se encontrava antes, ou mesmo quantas não se mostraram não ser aquilo que pregavam inicialmente? Pode-se argumentar que de certa forma existiu uma ingenuidade em achar que as coisas são mais simples na teoria do que na prática, e isso até corresponde a verdade, mas não toda ela, em muitos casos é só uma plataforma para alguma minoria ter força para derrubar o poder vigente. Os porcos desde o início do livro já mostravam que iriam ter mais privilégios do que os demais, alegando primeiro que seu trabalho intelectual era vital para o sucesso da empreitada da comunidade estabelecida, e mais tarde partiram para a ameaça da volta do “antigo regime” e com algumas manipulações. Conforme vão tendo mais a aquiescência dos demais e vão ficando cada vez mais distantes do resto dos bichos da granja, até se transformarem em déspotas ainda maiores do que eram o Sr. Jones e o resto dos empregados. Mudam-se as peças, ou talvez só mude o lado onde os jogadores ficam, mas o jogo é o mesmo, apesar da história contada ao povo ser oposta a isso. Já tinha ouvido que quem experimenta o poder uma vez é até mais apegado a ele do que quem sempre viveu nessa situação, é um deslumbre que enfeitiça e prende as pessoas a fim de não voltarem ao estado que se encontravam, principalmente se for entre aqueles que nunca tiveram muita força, significância ou status. Não raras são às vezes que as massas são usadas como forma de uma minoria chegar ao poder sob a bandeira do “povo unido”, da “revolução do povo”, ou qualquer coisa que o valha, mas que só é uma forma dessa minoria atingir seus objetivos. Sansão, o cavalo conhecido pela força de trabalho, não era lá muito inteligente, mas tentava compensar isso com seu caráter firme e com sua força de trabalho, aquilo que ele tinha para contribuir para que a revolução pudesse ser bem sucedida, não à toa adotou para si o lema: “Trabalharei mais ainda” e mais tarde com “Napoleão tem sempre razão”, por crer fielmente na capacidade de Napoleão, capacidades que ele não possuía e por isso mesmo via no porco o salvador que os animais necessitavam. A sua fé era cega, pois Napoleão representava a salvação em si, e isso em geral é algo que dá muito errado, vide o fim de Sansão, que não passou de uma ferramenta que logo após não ser mais útil é descartada.

O apego por esse poder, pela influência, pelo luxo, pela boa vida, levaram aos porcos a algumas medidas para manter esse status, como o já falado medo da volta da exploração pelos humanos, mas uma das maiores era pela manipulação da massa, geralmente representadas pelas ovelhas, que a qualquer discordância da opinião de quem estava no poder, tratavam de balir a máxima “Quatro pernas ruim, duas pernas bom”, a única coisa que entendiam do Animalismo. Como não relacionar as massas, em qualquer época e pensamento político, que gritam frases curtas e fáceis de se lembrar, usando aquele slogan como resposta para tudo e que usam para alimentar sua convicção? É a coisa de você diluir tanto um pensamento em algo mais simples que já não corresponde a ideia original, só é usada como lenha para incendiar e ganhar o povo, caindo novamente na questão de símbolos que unem as pessoas em um objetivo comum. Isso também vai ao encontro da parte em que começaram a mudar os mandamentos acrescentando o que quer que lhes agradasse, e os outros animais, como não sabiam ler, acabavam acatando. Tanta era a fé nesses mandamentos e no grupo que estava no poder, aliado a não saberem ler, que acreditavam em tudo o que estava escrito, e se desconfiavam que não era bem assim, logo eram facilmente convencidos do contrário. As ovelhas, novamente manipuladas por Garganta passaram a balir “Quatro pernas bom, duas pernas melhor!”, após os porcos aprenderem a andar sobre duas patas, e já não se importavam com a mensagem em si, mas com o clima proporcionado pela liderança, não à toa no fim a mensagem acaba sendo totalmente distorcida com aquela que talvez seja a frase mais famosa do livro: “Todos os bichos são iguais, mas alguns bichos são mais iguais que outros”. Por fim os animais já não se lembravam se a vida com Jones era realmente pior que a atual, como clamavam os porcos, cada vez mais a ideologia inicial se perdia com o tempo, e a revolução era só mesmo uma espécie de lenda que ainda perdurava e era contada na versão dos porcos vencedores aos demais bichos, mais submissos do que nunca e que dificilmente voltarão as ideias de liberdade que os incitaram inicialmente a rebelião. Ironicamente, lutavam por liberdade e acabaram mais presos do que jamais estiveram, dessa vez não por arreios, freios, correntes, mas por grilhões mentais forjados pelo medo e pela mentira.

 “De vez em quando, os mais idosos rebuscavam a apagada memória e tentavam determinar se nos primeiros dias da Rebelião, logo após a expulsão de Jones, as coisas tinham sido melhores ou piores que agora. Não conseguiam lembrar. Nada havia com que comparar: não tinham em que basear-se, exceto nas estatísticas de Garganta, que invariavelmente provavam estar tudo cada vez melhor.”

Mais do que uma crítica do socialismo soviético é uma fábula sobre o poder, sobre a manipulação das massas e sobre o autoritarismo, com uma história de promessas de liberdade e condições igualitárias, mas que no fim dá lugar a uma nova sociedade repressora e controladora, chegando a ser pior que a anterior. As classes continuam lá, só que o fazendeiro sai e ficam-se os porcos com sua guarda de cães ferozes criados para obedecer cegamente ao seu inquestionável líder, se tornando uma sociedade com uma liderança mais autoritária e violenta do que aquela que combatiam, mas com os líderes suínos se aproveitando dos mesmos luxos e do trabalho da classe operária assim como os humanos. É um livro atual, simples e por isso mesmo continua atraindo e cativando leitores, e quem ainda não leu faça o favor de ler e não vai se arrepender.

Anúncios

Um comentário sobre “A Revolução dos Bichos – George Orwell

  1. Pingback: Distopias Literárias – Primeira Parte | Foco de Resistência

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s