Ardil-22 – Joseph Heller

Antes de tudo, creio que muita gente deva ter conhecido esse livro da mesma forma que conheci, fiquei sabendo através da saudosa série LOST, onde, aliás, o nome do episódio onde esse livro dá as caras – e é uma edição brasileira – é justamente Catch-22 (O nome no livro, no original em inglês). E assim como a série o livro aborda temas bem parecidos, como histórias sendo contadas entre inúmeros flashbacks e gente tentando escapar de uma ilha.

Passa-se durante a 2ª Grande Guerra Mundial e brinca com a insanidade e o medo que a guerra provoca. A história gira em torno do malandro Yossarian, um bombardeador de um esquadrão americano que está situado na ilha de Pianosa, na Itália, mas a todo o momento o livro muda de foco para outros personagens do esquadrão, com os problemas e dilemas destes. Yossarian tenta de todas as maneiras ser dispensando, ou pelo menos não voar suas missões, mas quando ele está quase completando o número de voos necessários, sempre surgem mais missões para voar, e com o medo que ele tem  de morrer em combate, criado sobretudo por ver um colega ser morto em uma missão, ele sempre dá um jeitinho de se passar por doente e ficar um tempo na enfermaria.

Os pilotos tentam a todo o momento conseguir uma dispensa alegando estarem loucos, porém eles não conseguem devido ao tal ardil-22 que dá nome ao livro. Basicamente o ardil é o seguinte: Tudo o que os pilotos que queriam ter baixa alegando insanidade tinham de fazer, era apenas pedir um exame que comprovasse que estavam mesmo insanos. Ao pedir o exame eles eram automaticamente reprovados pela lógica de que não era louco quem não quisesse voar nas missões, afinal essa era considerada uma atitude de uma pessoa totalmente sã, loucura mesmo seria se quisessem continuar voando nelas correndo o risco de morrerem em combate. Se eles não pedissem baixa, eles voavam, e se pedissem baixa também voavam, pois eram considerados aptos a desempenhar a tarefa, não tendo nenhum impedimento para tal. O engraçado realmente é tentar ser dispensado por insanidade, e não conseguirem, pois o ambiente é insano, não apena por conta de estarem em guerra, mas dos personagens que não batem bem da cabeça. Irônico que confirma o ardil, os loucos é que querem lutar, e os que querem escapar é que são os sãos.

É bem divertido, com toques de humor negro, muita ironia e um pouco do típico humor britânico, apesar do autor ser americano, com aquele non sense aliado a uma autodepreciação, nesse caso da própria humanidade e da loucura de lutar e morrer por um país ou por um objetivo que não é o seu, de trocar sua vida por medalhas. É o riso que esconde a loucura ou que tenta suplantar a crescente insanidade que bate à porta, é o rir para não chorar, é o desespero da guerra colocado de uma forma diferente, mas que também pode ser bem impactante.

Os capítulos são nomeados de acordo com os vários personagens do livro, aliás, cada um mais maluco que o outro, mas justamente isso torna cada um extremamente peculiar, e em certos casos até absurdos, como o Major Major Major, cujo nome foi posto pelo seu pai como uma espécie de piada, aliás, o posto do Major Major Major é de Major. Também se destaca o cozinheiro do esquadrão, Milo, que acaba construindo todo um cartel comercial e lucrando com a guerra.

Não tem bem uma linha temporal definida, o livro vai e volta no tempo, e essa falta de linearidade, esse atropelamento de pensamentos, de histórias que puxam outras histórias que puxam outras por sua vez, fazem o leitor ficar meio perdido. É um vai e vem de passado com presente que causa certo caos mental, mas que é perfeitamente plausível para causar essa sensação de estranheza que só agrega ao livro. Os personagens são loucos e é uma forma interessante de conduzir essa história, aproximando ainda mais o leitor da cabeça desses soldados insanos, paranoicos, covardes, malandros, humanos. Aliás, os personagens que vão aparecendo aleatoriamente com suas próprias histórias, também confundem o leitor, mas a confusão é necessária e proposital.

Enfim, um excelente livro, porém não sei se é um livro para todos, talvez não vá de encontro com o tipo de humor do leitor, talvez o leitor se sinta mais incomodado com o caos da linha temporal em que a história se desenvolve, talvez até não entenda os motivos disso, de colocar a guerra de forma satírica explorando os medos, a paranoia, a burocracia, as repetições, a loucura e os absurdos diários, a falta de heroísmo ou de glória no campo de batalha, a falta de escolha, a falta de sentido. Um livro engraçado, profundo e insano. Sim, é realmente um livro e tanto.

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Um comentário sobre “Ardil-22 – Joseph Heller

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