Deuses Americanos – Neil Gaiman

“-Assim, como todos vocês tiveram oportunidade de descobrir sozinhos, existem novos deuses crescendo nos Estados Unidos, apoiando-se em laços cada vez maiores de crenças: deuses de cartões de crédito e de autoestradas, de internets e de telefones, de rádios, de hospitais e de televisões, deuses de plástico, de bipe e de néon. Deuses orgulhosos, gordos e tolos, inchados por sua própria novidade e por sua própria importância. Eles sabem de nossa existência, têm medo de nós e nos odeiam – disse Odin. – Vocês estão se enganando se acreditam que não. Eles vão nos destruir, se puderem. É hora de a gente se agrupar. É hora de agir.”

Deuses_americanos_capa.inddO livro começa com Shadow cumprindo os seus últimos dias na prisão com a expectativa de sair dentro de muito pouco e se reencontrar sua mulher, e de quebra se restabelecer de volta à sociedade com a ajuda de seu melhor amigo que lhe garantiu um emprego assim que ele saísse de lá. Estando prestes a ganhar a tão aguardada liberdade e ter sua vida de volta, ele recebe a notícia que ela morrera em um acidente automobilístico junto do tal amigo. Liberto, mas abalado pela notícia da perda e por ver todo seu mundo desmoronar, ele e acaba conhecendo um senhor misterioso que parece saber bastante de sua vida, e que lhe oferece um emprego, que depois de certa relutância ele eventualmente acaba aceitando, afinal toda a sua vida acabara de ruir e ele não tinha mais o que fazer, estava sem um norte, totalmente perdido. E assim a vida do nosso personagem principal muda completamente, com um mundo conhecido indo abaixo, mas com outro desconhecido pronto para se revelar para ele.

“Vamos ver. Bom, considerando que hoje certamente é o meu dia e que hoje é quarta-feira, por que você não me chama de Wednesday? Senhor Wednesday.”

Quem é perspicaz logo descobre quem é esse enigmático personagem, quem não é ainda tem algumas chances com as referências que o autor vai jogando, como o fato dele ter um olho de vidro e também o seu próprio pseudônimo. Para quem não pegou de primeira o motivo dele pedir para ser chamado de Wednesday vou logo explicando, os nomes dos dias da semana em inglês são referências aos deuses nórdicos (e em muitos outros países os homenageados são deuses latinos, como Marte, Mercúrio, etc). Após a queda de Roma, alguns povos de origem germânica se fixaram na Inglaterra, principalmente os Anglos (de onde veio o nome Inglaterra – Angland) e os Saxões, tendo o inglês se originado a partir dos dialetos desses povos. Wednesday é uma referência a Odin, Woden ou Wotan/Votan, e vem de Wōdnesdæg, ou Woden’s Day, ou seja, quarta-feira é o dia de Odin. Outros deuses também podem ser identificados pelos “nomes civis” que usam no cotidiano dentro do livro, aliás, a revelação de um deles no fim do livro deixa claro essa brincadeira que o Gaiman fez com os nomes.

Somos levados então a um mundo onde o divino e o mundano mesclam-se em um só, onde os deuses caminham entre os humanos, e acompanhamos Shadow e Wednesday em viagens pelos Estados Unidos encontrando deuses antigos como Anansi, Czernobog e Mama-Ji e pedindo para que eles se juntem contra os deuses modernos que estão em ascensão e que ganham o espaço e a adoração que antes eram direcionados para os antigos, em um clima de prenunciação de uma batalha iminente entre deuses.

Os deuses e criaturas são colocados em uma posição mais terrena, mais profana, todo o ar de poder e de imponência são deixados de lado e a decadência é visível. São completamente humanizados, não pelas emoções em si, mas por viverem entre os homens quase como iguais. Um detalhe que chama a atenção é que não são apenas personificações de ideias sob uma forma mais etérea como era de se esperar, eles são físicos e realmente interagem diretamente com as pessoas no dia-a-dia, fazendo com que elas não saibam que os gerentes de uma funerária da sua vizinhança possam ser deuses egípcios, por exemplo. É uma ideia bem interessante, porém não gostei muito dessa forma carnal em algumas situações, é uma questão pessoal, acho que uma forma menos física pudesse até ser melhor para se trabalhar, principalmente na questão da morte dos deuses, aonde o abandono iria acabando com eles aos poucos, desvanecendo, assim como desaparecem da lembrança do povo, não podendo ficar expostos a uma morte física, como é o caso do livro. Acho mais coerente com a ideia de uma crença criar um deus ou levar um deus existente a novas terras, onde ele pode ser mais ou menos poderoso. Fiquei imaginando também um deus e suas várias formas físicas em lugares diferentes, acho que não sendo um conceito que adquire matéria tem-se um caráter mais universal, embora cada lugar ter algum ser mitológico moldado de acordo com a forma de pensar de seu povo também é um conceito bem interessante. Obviamente isso é algo pessoal, tudo o que disse sobre os deuses “encarnados” releva-se pelo aspecto da obra de explorar uma mitologia moderna e como ela se sobrepõe as antigas crenças, colocando o que é sagrado como mundano e o mundano como sagrado, e também por isto ser justamente o que o autor queria ao colocar os deuses em uma posição dessas, é uma forma de conduzir uma história e explorar esses conceitos. É importante dizer que os humanos não conseguem ver as formas mais etéreas dos deuses, e a morte dos deuses não é algo tão definitivo, caso ainda sejam lembrados e amados podem ser substituídos por “outro similar”, quase um renascimento, afinal, eles são conceitos, e enquanto existirem nos corações dos humanos, eles continuam a existir no mundo. A morte só é final se ela vir depois do abandono, e enquanto forem lembrados, celebrados, adorados, eles ainda tem algum poder.

“[…] Eu sou a caixa dos idiotas. Sou a TV. Eu sou o olho que vê tudo e sou o mundo do raio catódico. Eu sou o tubo dos tolos… o pequeno altar na frente do qual a família se reúne para fazer suas preces.

– Você é a televisão? Ou é alguém na televisão?

-A TV é o altar. Eu sou aquilo pelo que as pessoas se sacrificam.

-Como elas se sacrificam? – perguntou Shadow.

– Dão o tempo que têm – disse Lucy. – Às vezes, umas as outras.”

O melhor do livro é sem dúvida alguma o conceito de novos deuses, não aqueles do tipo nascidos de religiões novas ou aquela mistureba de várias crenças que vez ou outra alguma seita faz, mas sim de objetos que cada vez mais recebem nosso apego, nossa atenção, nosso tempo, e em alguns casos, a nossa verdadeira adoração. São rituais modernos, sacrifícios que são feitos sem se notar, adoração a novos tipos de imagens, celebridades que viram heróis modernos. Não trata-se bem de uma religião, mas daquilo que o coração humano anseia, e isso muda com as épocas. O homem adora e isso dá poder, é o reconhecimento, o pensamento focado que cria e torna real, então o esquecimento é a morte para os deuses. Eles nascem, se erguem e perdem a importância, sendo substituídos por outros. Os deuses são tão dependentes dos humanos quanto os homens se acham dependentes daquilo no qual eles creem.

Fico focando muito nos deuses, palavra que desconfio que seja a que mais usei nesta postagem, afinal eles são o foco do livro, porém não são apenas eles que aparecem, outros seres mitológicos como leprechauns, kobolds, piskies e anões  são citados e também ganham alguma relevância dentro da história. Não são apenas as deidades que são adoradas ou são unicamente as imagens mentais que povoam a imaginação do povo e nas quais tenham fé em sua existência, então é perfeitamente normal que eles apareçam também.

O livro conta com interlúdios no fim de alguns capítulos com pequenas histórias de cultos e crenças, com deuses e criaturas vivendo suas vidas nesse Novo Mundo. Chegam a até ser melhores do que a história do próprio livro, até acho que se fosse um livro com contos, como relatos que são escritos pelo Senhor Ibis, seria muito mais interessante de ler.

Neil Gaiman tem um estilo que procura descrever todos os detalhes, por menor que eles sejam, para melhor formar uma cena cotidiana, desde pequenos objetos e outras banalidades ou até mesmo descrevendo nomes de lojas ou qual música que os personagens estão ouvindo, e isso agrega bastante ao dar uma imersão maior ao leitor, praticamente não há esforço algum na hora de se construir alguma imagem mental ao ir lendo o livro. O livro também possui, como era de se esperar, uma pegada meio sombria com um toque de fantasia, porém daquela fantasia que remonta o folclore  e os mitos  antigos da Europa, onde o fantástico e macabro se misturavam, e não aquele clima dos contos de fadas que foram amenizados através dos anos que nós estamos acostumados, se bem que eles ainda carregam alguns traços sombrios das suas versões originais. Isso tudo vai muito da proposta do livro de revisitar mitos e construir toda uma mitologia moderna em torno do que nos é atualmente “sagrado”.

Há que se dizer que nem tudo são flores e existem alguns pontos que incomodam, ou que pelo menos incomodaram a mim. Achei o Shadow um personagem que carecia de um pouco mais de carisma, talvez fosse a intenção do autor colocar um personagem “vazio” justamente por ele ter tido um grande choque no início do livro, ou ressaltar dessa forma que o personagem é alguém que está em uma jornada em busca de si mesmo, de se sentir vivo, e até mesmo o nome dele passa esse sentido de não ter uma identidade definida, mas essa característica apática do personagem também acaba passando uma indiferença que não ajuda o leitor a ter mais empatia por ele. Devo dizer que gostei mais do Mike Ainsel do que do Shadow, acho que ele teve mais personalidade nessa parte, talvez por nessa parte ele “ser alguém” e não ser só uma “sombra”. Só uma curiosidade, não é um spoiler porque não é algo que é explicito no livro, mas há certos detalhes como uma frase do Loki, que dão a entender que o Shadow possa ser um certo deus do panteão nórdico. Também achei que faltou explorar mais os personagens secundários mitológicos, acho até que ele deu mais ênfase em alguns pontos aos personagens humanos, mas também pode ser birra minha por querer ver mais desses deuses antigos que não são muito conhecidos. Fica uma dica que pode ser muito útil, não esperem que esse livro seja um livro de ação, em certo ponto da história talvez possa dar essa sensação ao leitor de que terá alguma ação épica no fim, mas o livro é puramente de fantasia, tenham isso em mente e acho que a leitura ficará melhor.

Um bom livro, não é perfeito, passa longe disso até, mas é agradável, embora você sinta que pudesse ir além. Alguns amam, outros já não gostam tanto e veem até mais falhas do que acertos, mas aqui vai um segredo, não vá por esse caminho da expectativa que muita gente coloca no autor por ele ser quem é ou pela expectativa dos outros, que por terem gostado muito do livro acabam se levando pelo entusiasmo na hora de falar qualquer coisa sobre o assunto e exageram. É fácil para alguns se decepcionarem se decidirem seguir por esse caminho, mergulhando fundo em algo que talvez não combine com seus gostos. Não achei que seja a magnum opus do Gaiman, acho até que o enredo poderia ter sido mais bem desenvolvido, explorando mais alguns personagens e até mesmo expandindo esse mundo, e sou obrigado a dizer novamente que se fosse uma coletânea de contos sobre esse universo daria muito mais certo sem a necessidade de ter um personagem guia como o Shadow e podendo explorar mais das criaturas e deuses chegando e se estabelecendo nos Estados Unidos. Apesar de ficar com essa sensação de “poderia ser muito melhor” é um livro bem divertido de se ler, principalmente se entender a proposta do autor e deixar esses detalhes de lado.

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Um comentário sobre “Deuses Americanos – Neil Gaiman

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