J.R.R. Tolkien x George R.R. Martin

John Ronald Reuel Tolkien ou J. R. R. Tolkien é sem sombra de dúvidas o primeiro nome que se passa na cabeça da grande maioria de pessoas quando se fala em livros de fantasia, e há grandes motivos para isso, afinal O Senhor dos Anéis foi o livro que revolucionou o gênero, que sem dúvidas, se tornou outro depois das obras do professor. George Raymond Richard Martin a.k.a. George R. R. Martin ganhou muita notoriedade nos últimos tempos, impulsionado pelo sucesso de Game of Thrones, que adapta para a TV a sua grande, e grandiosa, série de livros As Crônicas de Gelo e Fogo, que, pelo menos para o grande público, inovou com uma trama cheia de reviravoltas, com personagens cinzas, sem aqueles valores sólidos e perfeitos, com muito sexo e focando no jogo político, tendo uma tendência a se parecer mais com a realidade nessas questões. Ambos mudaram o status quo da fantasia, os dois ganharam muitos fãs e os seus fãs não raramente ficam discutindo e brigando sobre qual é melhor e o motivo de um ser melhor que o outro, mesmo que esse motivo não fique lá muito coerente para qualquer pessoa que não eles mesmos. Bem, não vou entrar nessa discussão de quem é melhor, até porque isso pode ser muito subjetivo, mas compará-los… aí já é outra história.

CS 67 26th October 2010

George R. R. Martin e J. R. R. Tolkien


Qualquer crítica comparativa é difícil, pois muitas vezes os críticos levam mais em consideração os seus gostos do que os pontos chaves, muitas vezes o senso crítico é cegado por um fanatismo que só pende para um dos lados da balança, analisando alguns pontos e deixando outros de lado, então tentarei olhar para as características deles, dos leitores de cada, as influências dos escritores, e principalmente para cada época e suas peculiaridades, que é o ponto crucial para entender as mentalidades desses dois grandes escritores de fantasia. Não vou concluir nada, afinal isso quem deve fazer são os próprios leitores, apenas vou colocar as cartas na mesa e comparar as principais obras de ambos, e veremos que há muita diferença, mas que também existem semelhanças entre eles.

Características

Cada um tem seus pontos fortes e suas “marcas”, como a já famosa sede de sangue de Martin ao matar sem pensar duas vezes personagens importantes e até principais, o que coloca o leitor com um temor de virar a página e se deparar com o personagem favorito nos seus últimos momentos. O George R. R. Martin tem uma característica que me agrada muito, não existem os clichês que assombram grande parte dos livros. O leitor fica sem nada ao que se apoiar, pode-se traçar toda uma situação, mas de alguma forma o Martin nos surpreende e faz com que alguma atitude ou acontecimento mude completamente a situação, jogando todas nossas teorias de acontecimentos futuros no lixo. Isso é fantástico, e também é fantástica a forma com que ele faz isso, afinal manter o leitor surpreso e apegado à história é fundamental. Mais do que as mortes, característica pela qual que eu não acho que deveria só se relacionar, ou dar maior ênfase, quando se fala nas Crônicas de gelo e fogo, ou mesmo as polêmicas cenas de sexo, acho que essa capacidade de virar o jogo e mudar completamente os caminhos para onde se está seguindo que é a grande qualidade dele, isso que faz a série de livros ser grandiosa, e não apenas uma série de livros grande.

Tolkien também tem a sua marca pessoal, e não apenas por ser conhecido como o “pai da literatura fantástica” ou o “pai da literatura fantástica moderna”, e por chegar a um nível quase mítico, onde todos os escritores desse estilo desejem ter seus nomes junto a esse panteão que Tolkien pertence. J. R. R. Tolkien era professor universitário, deu aulas de anglo-saxão, inglês e literatura inglesa na Universidade de Oxford. Era também um filólogo, e essa paixão pela linguística é algo que é importante para entender a Terra-Média, afinal ele chegava a criar personagens depois de inventar os nomes, e a própria Terra-Média e seus diversos povos era uma forma dele exercitar essa sua paixão, criando línguas e as transformando de acordo com alguns acontecimentos, assim como é na própria História humana, sendo o élfico talvez o maior exemplo com o Sindarin e o Quenya, embora também existam outras línguas faladas por outros povos, como os anões e seu idioma “secreto” (eles não revelam a ninguém que não seja de sua raça), a Língua Negra falada pelos orcs e as línguas faladas pelos homens. Muitas dessas línguas possuem caracteres próprios, diferente do Martin, que só criou algumas palavras para os idiomas falados (Dothraki e Valiriano), Tolkien realmente CRIOU as línguas faladas na Terra-Média, totalmente estruturadas com todas as suas peculiaridades e regras gramaticais, tudo ali faz sentido e pode ser aprendido como uma língua “real”, e isso dá um grande poder de imersão à obra, assim como as detalhadas descrições, mas quanto a isso falarei depois.

Mundos Fantásticos

Tolkien criou um “Universo” não apenas um livro, criou toda uma cosmogonia, praticamente (re)criou toda uma mitologia e Arda é o principal personagem das suas histórias, e os personagens são apenas para ilustrar esse grande personagem que é esse mundo. Os detalhes da criação, que, aliás, podem ser vistos no Silmarillion e é algo absurdo, só prova que Tolkien criou um mundo realmente crível em todos os detalhes. É fácil você acreditar que a Terra-Média possa ter sido uma parte de uma mitologia antiga, criada e recriado por diversas pessoas ao longo de séculos, e não apenas vindo da mente de uma só pessoa, apesar de obviamente ter sido amplamente influenciada por mitos europeus e por mitos bíblicos. Martin, por outro lado, colocou seu foco mais nos personagens (characterdriven) e nos detalhes que os cercam e não tanto no mundo quanto Tolkien fez, embora claramente tenha criado um mundo fantástico com locais interessantes, mas o foco é na política e nas relações humanas, aliás, ele explora com maestria os cultos e religiões, um dos melhores que já vi na literatura fantástica nesse quesito. Apesar das abordagens diferentes, os dois Universos são críveis por um ponto que pessoalmente gosto bastante, a História. Tanto de um quanto de outro, o leitor realmente sente que aquilo poderia mesmo ter existido dado aos detalhes sutis que permeiam e dão vida à história. Tanto na Terra-Média quanto em Westeros você pode imaginar centenas de narrativas que se passariam em períodos diferentes. Em Westeros poderia se explorar e criar histórias das famílias nobres, criar outros tantos livros só sobre esse passado, que geralmente não é aprofundado, tirando um conto ou outro que o Martin publica, fica só nesse mistério de pequenas peças que são colocadas, algumas de formas bem sutis e que levantam muitas teorias, bem além daquelas mais famosas como a da paternidade do John Snow. Tolkien por outro lado, se aprofundava na História da Terra-Média, tudo deveria ter uma explicação, um sentido, uma vida própria. Nesse ponto, apesar de guardadas as proporções e finalidades, os dois têm isso em comum, e que acaba faltando a muita gente por aí que tenta chegar ao nível desses dois mestres. Com eles você tem a nítida sensação que esses mundos não começaram ou acabaram naquele ponto que o autor conta sua história.

Épocas diferentes

Talvez o ponto mais importante a ser analisado seja a época em que os escritores viveram/vivem e quando publicaram seus livros, afinal compará-los sem levar em consideração isso é ficar preso em uma bolha temporal achando que o mundo foi sempre o mesmo de hoje, e com as drásticas mudanças do século XX, décadas fazem uma diferença gritante na questão do comportamento da sociedade. Para facilitar vou dividir esse tema em escrita, mercado e valores.

Escrita

Tolkien é muito mais descritivo, para algum até excessivamente, o que deixa a leitura mais arrastada, ao contrário de Martin que escreve de um modo bem mais fluído e objetivo. É importante lembrar que Tolkien escrevia em uma época onde a imaginação era mais necessária do que hoje em dia, e eu explicarei o porquê disso. Na primeira metade do século XX, os principais meios de informação eram os impressos, como jornais, panfletos e livros, e principalmente o rádio, não é de se espantar que era necessário uma imaginação maior para “ver” as histórias que se consumia através desses meios, ou até mesmo de entender o que se estava passando no mundo. A TV só se tornou mais popular a partir dos anos 50, e mesmo assim não havia tanta opção de programas quanto existe hoje. O ponto que quero tocar é esse, as pessoas não tinham tanto acesso a imagens pré-formadas quanto se tem hoje em dia, não apenas com a televisão, mas também com a internet e o cinema. Hoje as pessoas já têm desde cedo todo um arquivo de imagens ou um acesso mais fácil a elas, ao narrar uma batalha, por exemplo, já se possui um rascunho de como seria estar ali, ainda mais depois de dezenas de filmes, seriados e documentários que fizeram sobre o tema, ou mesmo imaginar uma determinada raça de criaturas, e mesmo se tem alguma dificuldade em imaginá-las, só dar um pulo no Google Imagens para ver centenas de artes de fãs do mundo todo. Antes não havia essa facilidade, e era realmente necessária uma descrição mais aprofundada, principalmente de algo que as pessoas não tinham muita ideia do que era, e atualmente, com toda essa inundação de informação é algo mais anacrônico, até porque as pessoas hoje querem tudo mais objetivo e rápido. Os tempos mudaram. Martin é uma pessoa que também já trabalhou como roteirista para a TV, e ele entende melhor esse mundo que Tolkien não chegou a viver. Acho que pela época que vivemos ACDGEF tem uma linguagem mais acessível para o grande público.

O público e o mercado

Quanto ao marketing acho que ambos se beneficiam desse fator, tanto SdA ganhando um público mais novo com os filmes, quanto ACDGEF  que passaram a realmente a fazer sucesso e ser conhecido pelo grande público com a série de TV. O público que a TV e o cinema é bem mais abrangente do que o que os livros conseguem fazer, além de ser mais visual é mais rápido e até mais “fácil” de se consumir, tudo já está ali pronto, e isso é até bom, acaba trazendo os públicos de uma mídia para a outra.

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Há também um ponto muito importante a ser analisado ao se comparar Tolkien com Martin: o mercado. Hoje em dia não se pode comparar com o que era antigamente com a questão de opções, a variedade é gigantesca. O consumo também é mais incentivado, os produtos são mais acessíveis a todos, e até mesmo não há um preconceito tão grande com quem gosta de certos tipos de livros/filmes/seriados, como havia há alguns anos, e a própria fantasia como gênero teve grande ajuda de Tolkien para sair de um patamar de uma “literatura menor”, e o Martin também conseguiu fazer com que muita gente tire da cabeça uma concepção, geralmente bem errada, de que fantasia é apenas para crianças e adolescentes, fugindo de algo mais adulto.  A produção, a disponibilidade de entrega e aquisição, e até mesmo o padrão de vida que existem atualmente facilitam para que mais pessoas tenham acesso aos livros.

Os valores de cada época

Tolkien escrevia em uma época com valores bem diferentes, a sociedade era realmente mais maniqueísta, não à toa há uma impressão de que o um lado era mais “bonzinho” e o outro malvado em algumas guerras daquela época, a 2ª Grande Guerra Mundial talvez o maior exemplo disso, e O Senhor dos Anéis foi escrito exatamente nessa época, e depois dessa guerra nunca mais se teve esse tipo de impressão de lados bem definidos ou mesmo de heróis de guerra. Martin já é de uma época que esse tipo de pensamento não cabia mais, de livros escritos pós-Vietnam, de uma era onde o certo nem sempre é certo. Não há mais heróis e vilões, há lados que lutam pelos seus próprios interesses, e a própria percepção do povo é de um pessimismo em relação ao ser humano. Tendo vivido o período das duas Grandes Guerras Mundiais, lutando a Primeira, inclusive, é de se esperar essa visão mais binária de bem e mal por parte do Tolkien, ainda mais com a forte crença religiosa que ele tinha, ele era realmente um católico fervoroso, e isso teve grande impacto no mundo de Senhor dos Anéis.

Atualmente também há certa valorização da violência, e até mesmo da vilania, calma que explico, depois de tantos vilões memoráveis, como Darth Vader, um excelente exemplo, as pessoas veem esses personagens como mais interessantes do que os próprios heróis, que eram até então mais valorizados. Até por conta de terem mais facetas, ou mesmo de não terem essa aura de intocados, os vilões são melhores de trabalhar e desenvolver, podendo ser até mais carismáticos que os próprios heróis.  Talvez isso até possa ser algo de nossa época, com todo esse pessimismo em torno do próprio ser humano, cada vez mais colocado como “o grande vilão”, nós vemos até os monstros mais “humanizados” e os homens mais cruéis e vis com mais frequência. Mas é bom lembrar que nem sempre os heróis foram sempre imaculados e perfeitos, os heróis gregos eram cheios de falhas, e esse arquétipo dos protagonistas heroicos, bondosos e imutáveis quanto as suas convicções pode muito bem voltar daqui a alguns anos e substituir essa onda de personagens cinza e com moral dúbia.

Considerações finais

Tolkien é melhor na criação de cenários, já o Martin é melhor na construção dos personagens. Você acompanha as Crônicas para saber o que vai acontecer com o personagem que você mais se apegou, principalmente pra ver se ele escapa. Nas obras de Tolkien você viaja para dentro da Terra-Média e não quer mais sair de lá. Com Martin os personagens não são tão fixos quanto a suas inclinações morais, eles mudam dependendo da situação, mudam de acordo com seus interesses, eles são mutáveis, coisa que você não vê na Terra-Média, onde ou se é bom ou se é mau, sem meios termos. Ambos são excelente, cada um com características próprias que podem agradar a uns e desagradar a outros, mas os dois têm qualidade e ainda bem que vivemos em um mundo onde possamos ler os livros dos dois e apreciar cada estilo com suas peculiaridades.

Martin além da fantasia flerta muito com a ficção científica, a numerosa série da qual ele participa, Wild Cards, com alguns volumes já publicados no Brasil, é prova disso, tendo começado ela antes das Crônicas e até hoje em dia continua com esse projeto, embora com o sucesso da série de TV e toda a pressão por novos livros, façam ele se dedicar menos a esse projeto. Tolkien era um acadêmico, estudava muito os mitos antigos, como o épico Beowulf, e o fascínio por essas narrativas mitológicas eram o que o inspiravam mais a criar a Terra-Média. Uma fantasia mais realista e uma fantasia mais épica, as influências pessoais de cada um pesam também para a construção das suas obras, e nesse caso vai do gosto pessoal de cada leitor mesmo, alguns podem querer algo mais pé-no-chão e outros já podem gostar de algo mais grandioso.

O próprio Martin é um grande admirador de Tolkien, assim como quase todos os escritores de fantasia, afinal é inegável que o professor Tolkien foi o grande divisor na literatura fantástica e o quanto ele influenciou, e continua influenciando, escritores até os dias de hoje, e o George Martin já está fazendo escola, influenciando muitos escritores atualmente, não é difícil imaginá-lo como uma grande influência para outros escritores daqui a uns bons anos. E se você fica de mimimi falando que um é melhor que o outro, só por que você gosta mais de um do que outro por conta de um tipo específico de abordagem é bom lembrar que os tempos mudam e com eles os gostos e o que cada geração quer, se querem heróis perfeitos ou pessoas cheias de defeitos, se querem algo mais fantasioso e inalcançável ou mais realista e sujo. O tempo passa, os gostos mudam, mas a qualidade sempre será reconhecida, porque essa é imutável.

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7 comentários sobre “J.R.R. Tolkien x George R.R. Martin

    • Valeu Bruno! Tolkien já chegou ao nível de mito, poucos chegarão aonde ele está, mas o Martin também tem suas qualidades. Vivemos em uma época muito boa pra aproveitar esses dois, duas abordagens diferentes, mas excelentes.

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  1. Muito boa comparação, gostei bastante! Os momentos históricos em que cada escritor vive/viveu realmente são extremamente importantes mas, infelizmente, muito poucos conseguem enxergar isso. Ainda mais com as (tolas) “guerrinhas” entre fãs. Parabéns pelo texto e pela objetividade! 🙂

    Curtido por 1 pessoa

    • Obrigado! É um erro comum querer comparar pessoas de épocas tão distintas, em que haviam visões pessoais, paradigmas, e gostos diferentes, como se fossem iguais em tudo. A maioria leva mais em questão os gostos pessoais do que o senso crítico, e muitas das análises são muito passionais de forma a elevar a um e esquecer as qualidades do outro, ou mesmo de rebaixar um para deixar o outro melhor visto. É uma guerra tola, como você mesmo disse muito bem aí, e isso diz mais do leitor do que sobre o escritor em si, aliás, gostar de um não impede de gostar de outros.

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    • Olá, Emilly! Esse post do Martin x Tolkien eu escrevi mais pelas discussões que acabam surgindo na internet, quanto a falar sobre o Brandon Sanderson, bem, eu conheço pouco sobre ele, só li os livros que foram publicados no Brasil, e até fiz as resenhas deles aqui no blog, mas a continuação de Mistborn, The Stormlight Archive, e os outros trabalhos dele eu ainda não li. Também conheço pouco dele, sei que ele escreve absurdamente rápido, foi escolhido para terminar a série “A roda do tempo” do Robert Jordan e o vi recentemente no H2 falando de mitologia, mas não sei muito além disso. Gosto dele tb, mas sou contra escrever sem ter base para falar sobre algo, não gostaria de fazer algo raso só por fazer. Com o tempo, e com mais livros lidos, eu acabo fatalmente fazendo algo mais elaborado, mas por enquanto eu não sou lá muito gabaritado para falar dele.

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