O velho oeste futurístico noir de Cowboy Bebop

Uma obra prima da animação que foi ao ar originalmente em 1998 no Japão e que não demorou muito para ganhar fama de anime cult no ocidente. Beira à perfeição em quase tudo, como a trilha sonora, em como consegue fazer inúmeras referências, com o cuidado com as cenas de ação, tanto de tiroteios, perseguições, batalhas espaciais e até mesmo luta corpo a corpo. Pontos positivos também para a direção, os ângulos de câmera e na utilização de luzes e sombras (Olha que nem entendo muito bem dessas coisas, mas chama tanto a atenção que não há como não notar).

São 26 episódios e um filme, o suficiente para marcar Cowboy Bebop como um dos melhores animes já feitos. Dizer o que há em CowBe é difícil, exatamente por haver tanta coisa, e tudo muito diferente, mas que de alguma maneira está em uma harmonia tão grande que você acaba aceitando facilmente esse mundo em naves espaciais sofisticadas dividem ruas com carros comuns, de um clima que mistura o velho oeste americano com filmes noir de detetive e de episódios dramáticos e sombrios com interlúdios de outros mais voltados a comédia.

O mundo é complexo, mas história em si é bem simples: A polícia espacial (Inter-Solar System Police, ou ISSP) não tem como capturar todos os bandidos que estão à solta, afinal o sistema solar é bem grande, então é oferecida uma recompensa para quem capturar os criminosos que tiveram suas cabeças colocadas a prêmio, veja bem, capturar e entregá-los vivos as autoridades, não há essa de “vivo ou morto”, se o meliante morrer adeus recompensa. Vale a pena esclarecer que o sistema monetário é único para todo sistema solar, é chamado de Woolong e é basicamente dinheiro virtual, na forma de créditos. Os caçadores de recompensa, que vivem desse trabalho de pegar os bandidos são também conhecidos como de “Cowboys”, e a história de Cowboy Bebop gira em torno de um grupo de caçadores de recompensa que viaja pelo sistema solar caçando esses criminosos, afinal o grupo vive sempre sem dinheiro e ganhar a vida é preciso.

Bem simples, não é? Mas o “universo de CowBe não é. A história se passa no ano de 2071 e nessa época planetas, luas e até asteroides foram colonizados com sucesso dentro do nosso sistema solar, impulsionados principalmente pelo fato da Terra se transformar um local decadente, devastada por um acidente com um portal hiperespacial que destruiu boa parte da lua e que coroou o planeta com um anel de detritos que caem constantemente na Terra, tornando o planeta um local pouco habitado, onde as pessoas que ainda vivem nele foram obrigadas a viver principalmente em comunidades subterrâneas para a sua segurança. Um ponto bem interessante é a arquitetura que é basicamente a mesma da nossa época, principalmente nas regiões mais pobres, cheias de favelas, mercados de rua apinhados de gente, carros e caminhões nas estradas, prédios velhos e outras construções que fazem você se esquecer de que a história se passa no futuro. Embora deva ser dito que nas regiões mais ricas, principalmente em Marte, há sim alguma arquitetura mais futurista, mas o charme da série está exatamente por não focar nisso, ficar nessa contradição entre o moderno e o antigo.

Carros e naves, canhões de plasma de espaçonaves e armas de fogo, colonização de outros planetas e arquitetura retrô, dá pra notar que o anacronismo não só é uma característica como é um ponto forte na construção de todo esse mundo singular que a série possui. Essa particularidade de misturar coisas de épocas diferentes também é visto em outro anime do diretor da série Shinichiro Watanabe, o também excelente Samurai Champloo. Os dois também compartilham outro ponto em comum: a trilha sonora escolhida a dedo. A música em si é parte fundamental do anime, seja parar criar o clima perfeito de algumas cenas, como os casos de “Call Me Call Me” e de “Blue”, seja pela sua qualidade absurda, ou mesmo por conta dos títulos dos episódios fazerem referências diretas a títulos de alguma música, álbum, ou até mesmo o nome de algum estilo musical, como no caso do episódio Mushroom Samba, por exemplo.

Os personagens são bem carismáticos também, vale a citação de uma pequena descrição de cada membro da nave Bebop:

  •  Spike Spiegel, o personagem principal do anime. É um ex-membro do sindicato do crime Dragão Vermelho que planejou uma morte falsa para sair do sindicato, e mais tarde acabou se tornando um caçador de recompensas. Tem uma personalidade sarcástica, mas que beira a melancolia às vezes. É hábil praticante de Jeet Kune Do, arte marcial desenvolvida por Bruce Lee, que aliás, é referenciado em vários momentos da série. Ele tem dois olhos de cores diferentes, já que é um deles é um implante, tendo perdido o verdadeiro em um acidente.
  • Jet Black, também conhecido como “Black dog”. É um ex-policial de Ganímedes, uma das luas de Júpiter, que perdeu um dos seus braços em uma ação policial, por isso ele acaba colocando um braço mecânico, embora a tecnologia da época fosse avançada o suficiente para ele reconstruir o braço, ele prefere manter o braço protético para lembrá-lo de suas ações no passado. É dele a nave Bebop, que foi adaptada de um navio de pesca. Mantém contatos com seus companheiros, o que acaba sendo de muita utilidade para o grupo para coletar informações que possam ajudar a localizar e capturar eventuais alvos.
  •  Faye Valentine é posta em sono criogênico por conta de um acidente que sofreu, não podendo curá-la com a tecnologia da época, os médicos decidem por este procedimento, só sendo curada, e acordada, 50 anos depois. Por ficar tanto tempo congelada ela também perdeu todas as suas memórias do passado, além de ter todos os seus registros perdidos por conta da explosão do portal hiperespacial. Além de acordar em uma época diferente sem saber quem é e onde está, ela também tem de pagar pelos altos custos da operação. Justamente por não saber quem é e de onde veio ela tem dificuldades em estabelecer relacionamentos mais duradouros com as pessoas, com medo de também perdê-las.
  • Edward Wong Hau Pepelu Tivrusky IV, ou Ed, é o nome da menina excêntrica, porém genial, que entra pra tripulação da Bebop lá pelo episódio 9, aliás, esse nome não é o seu verdadeiro nome, é só um que ela inventou para si mesma. O pai a deixou em uma creche e acabou esquecendo-a lá, e ele não lembra nem se ela é uma menina ou um menino, e esse traço absurdo de “só viver no presente” é um algo que é comum aos dois, algo oposto aos demais membros da tripulação que constantemente se prendem ao passado. Ela dá um tom mais leve na série, principalmente por ser usada como um alívio cômico.
  • Ein, um cachorro da raça welsh corgi pembroke que teve sua inteligência aumentada em um centro de pesquisas ilegal.

O passado é muito presente (sem trocadilhos) na vida dos personagens, seja através de um passado amoroso não resolvido, das atividades e atitudes tomadas, da busca de identidade ou da busca por uma pessoa específica. Eles não apenas “vivem” os seus passados, mas os perseguem, e isso fica bem claro com o triangulo entre Spike x Julia x Vicious. Alguns conseguem superar e resolver suas pendências conforme a série avança, mas entrar em detalhes vai estragar a experiência de quem não assistiu ainda e tá dando mole.

Posso dizer que é um dos melhores, se não o melhor anime que já vi. Cometi o erro de levar muito tempo pra assistir o anime e me arrependi profundamente de não tê-lo feito antes, mas reconheço que a idade me ajudou a apreciar mais, e se visse quando mais novo talvez não curtisse tanto, seja pela falta de maturidade, já que ela tem um tom mais adulto e bem diferente do que eu gostava quando moleque, mas que hoje em dia eu gosto muito desse tipo de profundidade, ou talvez também por não pegar algumas das muitas referências da série. Recomendo fortemente, até pra quem não gosta de animes ou é como eu que já se cansou e não consegue mais ver aquelas mesmas histórias, com personagens iguais  e que se leva uma vida pra assistir tudo de tanto que enrolam e deixam o roteiro sem nenhuma objetividade. Um anime marcante, cinematográfico, com personagens carismáticos, um mundo incrível, trilha sonora arrebatadora e com um final épico.

See you space cowboy…

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