A utopia distópica de Admirável Mundo Novo

Escrito por Aldous Huxley em 1931 e publicado no ano seguinte, esse livro aborda certos conceitos que em sua época pareciam como fantasias loucas, uma visão de futuro absurda com pessoas sendo feitas em tubos, de controle por consumo e por inundações de inutilidades, mas que hoje em dia esses mesmos conceitos soam como algo extremamente possível ou até mesmo bem familiares, o que é assustador.

A superorganização acabou por transformar pessoas em peças com utilidades pré-definidas, e isso por conta da superpopulação que forçou essa organização absurda para que houvesse estabilidade na sociedade, sacrificando a individualidade e os sentimentos que fazem o ser humano ser humano, e tudo isso com o aval da população após uma grande guerra seguida por problemas econômicos. O governo é único e global sendo governado por 10 Administradores, tendo o Estado Mundial o lema: COMUNIDADE, IDENTIDADE, ESTABILIDADE. Na verdade é como se vivessem em uma sociedade muito semelhante às de alguns animais, como o caso das abelhas ou formigas, sem espontaneidade alguma, apenas obedecendo a uma estrutura rígida. Uma sociedade baseada na saciedade dos desejos sem uma busca pela felicidade, afinal ela já está ali criada artificialmente desde o início. Uma distopia disfarçada de utopia.

Um dos temas abordados que mais chamam a atenção é a superorganização que foi necessária para que houvesse um equilíbrio, tanto de produção e consumo quanto de organização social. As pessoas são engenhadas, criadas de forma a se enquadrarem perfeitamente em funções sociais pré-estabelecidas em um sistema de castas criado artificialmente. Não há livre arbítrio, só há condicionamento, seja por genética, por hipnopedia (ensino durante o sono), por meios químicos e por doutrinação. A organização era o pilar principal que sustentava essa sociedade, havendo inclusive cálculos para definir um número ideal para a população no planeta, e com esse número definido consegue-se então “produzir” seres humanos na quantidade certa, e cada um executando exatamente a tarefa que é exigida no momento. Feitos exatamente para preencher cada lacuna, cada pessoa era feita, ou fabricada, exatamente para cada atividade necessária. Essa organização absurda não deixa espaço para a liberdade e para a individualidade e isso acaba sufocando a criatividade, ela reprime o próprio espírito humano, afinal eles não querem indivíduos, querem engrenagens para se encaixar nessa máquina perfeita que é a sociedade deles. E isso tudo se deu graças aos avanços na engenharia genética, uma das poucas áreas onde é permitido o uso da ciência sem “censuras” nos avanços que ela própria pode criar, afinal de contas ciência é mudança, e pode desafiar essa rigidez toda.

Como explicado no livro o Processo Bokanovisky é um dos principais instrumentos da estabilidade social nesse mundo, com homens e mulheres padronizados em grupos uniformes, uma verdadeira linha de produção biológica. Com esse processo conseguia-se criar noventa e seis humanos idênticos no lugar de um só através de uma série de interrupções do desenvolvimento embrionário, com o ovo germinando em múltiplos brotos. Existia a Sala de Predestinação Social onde são separados os embriões limitados a certas tarefas, logo depois indo para a Sala de Decantação e posteriormente eram condicionados para “fazer as pessoas amarem o destino social de que não podem escapar.”. Em Admirável mundo novo não há qualquer possibilidade de mobilidade social, até porque os indivíduos se sentiam verdadeiramente felizes fazendo as atividades as quais foram condicionados.

“Nós também predestinamos e condicionamos. Decantamos nossos bebês sob a forma de seres vivos socializados, sob a forma de Alfas ou de Ípsilons, de futuros carregadores ou de futuros … – ia dizer “futuros Administradores Mundiais”, mas corrigindo-se, completou – : futuros Diretores de Incubação.”

Barulhos de explosões, sirenes e alguns choques condicionavam as crianças a evitarem certos objetos e comportamentos, como no caso dos Deltas com os livros. Eram ensinados a não se misturarem com crianças de outras castas, procurando ficar mais com os seus e se sentindo felizes por isso, como disse anteriormente, não havia nenhuma chance de qualquer mobilidade social. Vale lembrar que cada casta vestia roupas com cores diferentes para diferenciar e distanciar ainda mais uma classe das outras, de forma que: Alfas usavam cinza; Betas, amora; Deltas, cáqui; Gamas, verde; Ípsilons, preto. Estimulavam também o consumo com esportes praticados com muitos acessórios e com condicionamento através de mensagens repetidas a exaustão enquanto as crianças estavam nos berçários, sugestionando, suprimindo a racionalidade. Use. Jogue fora, não conserte. Troque por um novo. Compre. Compre. Compre. A hipnopedia não era eficiente como modo de educar intelectualmente uma criança, mas era na educação moral com a repetição de frases que pouco a pouco iam se tornando parte da própria criança que levava essas sugestões consigo a vida toda, como um mantra que sempre lhes lembrava quem são e o que devem fazer, na verdade o que eles devem fazer definia quem eles são.

Os relacionamentos que eram mais demorados – poucos meses já eram vistos como algo muito longo- não eram bem vistos, qualquer sentimento de apego não era, afinal sentimentos não são racionais, sentimentos levam a exaltações, a experimentações, a novas perspectivas, a desestabilidade, e apego leva a individualidade e a noção de ego. Lembrando também que não existia o conceito de família, as crianças eram criadas em laboratório e criadas pelo Estado, família e parto natural eram vistos como coisas obscenas, novamente uma forma de tirar esses sentimentos incômodos à unidade, todos são exatamente criados da mesma forma, pelo menos dentro de suas castas. Em compensação a liberdade sexual era grande, desse modo retiram-se justamente os relacionamentos afetivos, eles satisfazem seus desejos sem constrangimentos ou preconceitos por parte da sociedade, na verdade a liberdade sexual é estimulada desde a infância. Um lema que é repetido a exaustão é o “Cada um pertence a todos” ( poderia ser o famoso “Ninguém é de ninguém”).

A droga conhecida como Soma é uma fuga de qualquer emoção incomoda que possa aflorar de tempos em tempos nas pessoas. Ela deixa as pessoas mais relaxadas, mais tranquilas e por isso mesmo menos inclinadas a questionar ou se revoltar, sendo uma parte vital do controle exercido na população. Ela também acaba deixando as pessoas dependentes, pois em uma sociedade onde esse tipo de droga não é só aceito, mas recomendado, a fuga para qualquer tipo de desconforto que possam ter é exatamente esse. O Soma era um substituto para a felicidade, na verdade para os habitantes do Estado Mundial o Soma era a felicidade em si.

“Hoje, tomam-se dois ou três comprimidos de meio grama e pronto. Todos podem ser virtuosos agora. Pode-se carregar consigo mesmo, num frasco, pelo menos a metade da própria moralidade. O Cristianismo sem lágrimas, eis o que é o soma.”

Acabaram também com o envelhecimento e findaram até com a própria ideia de perda pela morte, já que nessa sociedade não existem “indivíduos”, eles não são nada além de uma parte dessa máquina que deve funcionar corretamente, então é perfeitamente normal que sejam substituíveis. Uma máxima dita durante o livro define bem isso: “o corpo social subsiste, embora as células componentes mudem”. Uma sociedade de estabilidade, onde a padronização é tudo. Até no fim os restos são aproveitados, úteis até depois de mortos onde se conseguia retirar até 1,5 kg de fósforo por adulto, afinal cada um pertence a todos.

“Nós os preservamos de doenças, mantemos artificialmente as secreções internas no nível de equilíbrio da juventude. Não deixamos cair a taxa de magnésio e cálcio abaixo do que era aos 30 anos. Fazemos transfusões de sangue jovem. Mantemos o metabolismo estimulado permanentemente. Por isso, sem dúvida, eles não tem esse aspecto. Em parte – acrescentou – também porque a maioria morre antes de atingir a idade daquele velho. A juventude quase intata até os sessenta anos, e depois, zás!, o fim.”

Os personagens constituem uma parte muito significativa para entender esse mundo,alguns são pontos chave para compreender melhor a vida naquela sociedade, como o cado de um dos protagonistas, Bernard Marx, que era diferente dos demais. Por conta de um acidente na sua “fabricação” ele acabou nascendo com um defeito, ele era mais 8 cm mais baixo que os demais Alfas – casta a qual ele pertencia -, o que o colocava em uma espécie de crise de identidade ( e identidade era algo indesejado), não à toa as classes mais altas eram compostas de pessoas mais altas fisicamente, isso os colocava em posição superior de olhar de cima para baixo para as outras classes que lhes eram subservientes (elas eram condicionadas até certo ponto a associar a massa corporal com a superioridade social), e Bernard por vezes não era identificado como Alfa por conta desse “defeito de fabricação”. Tinha também uma reputação ruim, pois não era tão consumista e passava muito tempo sozinho, e isso era visto como algo suspeito. Ele tinha algo que os demais não tinham, e era algo temido nessa sociedade: consciência individual. Em um mundo tão uniformizado deve ser para uma pessoa não se encaixar perfeitamente nos padrões, é compreensível essa insatisfação que ele sente.

Outro personagem que é diferente dos demais civilizados era Helmholtz Watson, o melhor amigo de Bernard. Ele era insatisfeito com o que fazia, apesar de ser extremamente bem visto dentro dessa sociedade, mas ele sentia que faltava algo, que suas habilidades não eram bem utilizadas e que ele era capaz de ir além. Lembrei-me da pirâmide das necessidades humanas de Maslow, onde na base desta ficavam as necessidades mais básicas e voltadas para a sobrevivência e conforme essas necessidades mais básicas fossem supridas vai-se subindo um degrau na pirâmide, e o nível mais alto é o da autorrealização, onde a pessoa procura tornar-se tudo aquilo que ela pode ser, caso claro do Helmholtz.

Bernard convida Lenina Crowne, por quem era apaixonado, para visitar uma “Reserva de Selvagens” que ficava no Novo México. A reserva era toda rodeada por cercas elétricas para evitar que os “civilizados” entrassem sem autorização, que era difícil de conseguir, e também para evitar que os habitantes da reserva saíssem de lá. Bernard e Lenina foram ao pueblo de Malpaís, onde encontraram John, que claramente era diferente dos demais indígenas e que conseguia entender a língua dos dois estrangeiros. Descobriram que John era filho de Linda, uma Beta-Menos que há vários anos acabou se perdendo na reserva em uma viagem que fez com Thomas, o Diretor Mundial de Incubação. Linda estava grávida de Thomas, embora não soubessem na ocasião, e tendo dado a luz a uma criança na reserva ela ficou muito envergonhada de voltar a civilização, já que ser mãe era um ato indecoroso sob a perspectiva dos “civilizados”. Bernard tem a ideia de levar John e Linda para a civilização e para retirar os dois da Reserva de Selvagens, telefona para Mustafá Mond, um dos 10 Administradores Mundiais, mais precisamente o Administrador Mundial Residente para a Europa Ocidental, para que lhe autorize a fazê-lo, alegando “interesse científico”. Após a autorização da pessoa mais importante da região Bernard não teve problemas para trazer os dois à Inglaterra.

Voltar para a civilização era para Linda voltar a um mundo de sonhos, não que ela voltasse a uma vida exatamente como tinha antes de ir à reserva, por conta de ter estado em um local onde, diferentemente da civilização, não se podia acabar com os efeitos da velhice, ela acabou ficando repugnante para os demais que viam nela o envelhecimento e a decadência de que tanto fugiam e procuravam evitá-la, mas a civilização a permitia uma fuga da realidade através do Soma, com o esquecimento perfeito e sem efeitos colaterais que o mescal que tomava em Malpaís proporcionava. Para John, o “Selvagem”, como era conhecido pelos civilizados, era a chance de conhecer o mundo maravilhoso de que Linda lhe falava tanto na infância, fora que ele não era visto como um dos “selvagens” da reserva, sempre se sentia solitário por ser diferente e era constantemente deixado de fora dos rituais deles.

John era uma enorme atração nessa nova sociedade civilizada, pois era uma pessoa nascida de uma deles, mas sem condicionamento. Ele era uma curiosidade que as pessoas não podiam evitar. Por conta disso Bernard acabou tendo toda a aceitação social que nunca teve antes, ele era agora bajulado por aqueles que sempre o criticavam. Bernard era diferente dos outros, mas essa diferença agora era positiva, ele se sentia superior aos demais e não mais como antigamente, quando se sentia inferior. Entretanto para John esse mundo moderno de máquinas e condicionamento, de pessoas iguais (fisicamente e mentalmente), dessa supressão de toda e qualquer individualidade era terrível, e logo ele percebeu que esse admirável mundo novo não era o mundo maravilhoso que pensava ser, e que ele na verdade não pertencia a nenhum desses dois mundos.

Com a morte da sua mãe John vai cada vez mais se sentido enojado pelo comportamento das pessoas. Ele é em si um contraponto na história, o que o satisfaz não é algo tão material, mas algo mais ligado ao espírito/alma, como a religião e a arte, coisas estas que são incompreensíveis para os demais. A vida nesse mundo significava a perda de tudo o que ele considerava importante e belo, não havia laços emocionais, não havia religiões, havia apenas uma espécie de culto à Ford, evidenciando ainda mais esse meio de produção em massa de seres humanos que coloca o conforto e a estabilidade na frente da beleza e dos sentimentos. Só lembrar que Ford lembra “Lord” (senhor em inglês) colocando o mesmo como uma figura quase religiosa. John chega ao limite ao ver filas de Deltas, com gêmeos idênticos se encaminhando para receber sua cota de Soma, e ao ver essa cena que representa a total falta de liberdade e de individualidade ele surta e tenta jogar fora a droga, tentando libertar dessa prisão química o grupo de Deltas gritando para eles que ela era “veneno para a alma”, mas eles já estavam tão habituados, tão condicionados, que lutaram ferozmente contra essa atitude. Ele recebe ajuda de Bernard e de Helmholtz, do qual se tornou amigo e os três acabam sendo detidos e levados à presença de Mustafá Mond por conta desse alvoroço que criaram. Bernard e Helmholtz são “condenados” a serem exilados em das várias ilhas para quais são mandados, segundo o próprio Mustafá:

“Todas as pessoas que, por esta ou aquela razão, adquiriram demasiada consciência de sua individualidade para poderem adaptar-se à vida comunitária; todas as pessoas  a quem a ortodoxia não satisfaz, que tem ideias próprias e independentes; todos aqueles, numa palavra,que são alguém.”

John, que não foi permitido partir para uma dessas ilhas, já que Mond queria que essa experiência social do “selvagem” na civilização continuasse, acabou se isolando para se purificar dessa sociedade de felicidade artificial. Procurou sua virtude na possibilidade de aguentar as privações, de suportar a dor, de enfrentar as dificuldades, exatamente o oposto do que prega a civilização, mas acabou que isso serviu apenas como mais uma atração para os civilizados, somente mais um objeto de mais uma curiosidade infantil.

Quanto ao fim do livro, basta dizer que foi exatamente o que deveria ser, ou melhor, era o inevitável, extremamente condizente com a história e os personagens, sem apelar para finais agradáveis ou absurdos e poupar os leitores de um pouco de infelicidade, afinal não somos os civilizados de Admirável Mundo Novo e este final não é um desfecho agradável para eles, este final é um final para o “Selvagem”.

Regresso ao Admirável Mundo Novo

Quem gostou do livro, ou se ainda pretende ler Admirável Mundo Novo fica aqui uma dica excelente, leiam também como complemento Regresso ao Admirável Mundo Novo. Foi escrito e publicado quase 30 anos depois de Admirável mundo novo e é basicamente uma série de doze ensaios do Huxley sobre os temas abordados em AMN. Tendo como base pesquisas científicas, fatos históricos e acontecimentos da época em que o livro foi escrito. Ele acaba relacionando a sua ficção com a realidade, e até mesmo o que mudou do que ele pensava de tudo que o que podia acontecer quando escreveu AMN no início da década de 30 para o final da década de 50 quando escreveu RAMN.

Raras são as oportunidades que podemos ver as opiniões e comentários dos autores sobre suas próprias obras, e ainda mais sendo sobre o livro que é, torna isso ainda mais interessante.

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