Renunciai às esperanças, vós que entrais – Resenha da Divina Comédia –

De início conhecida apenas como Comédia – o “Divina” foi acrescentado em 1500 por Boccaccio – o poema épico e magnum opus do escritor florentino Dante Alighieri é sem dúvidas uma das maiores obras literárias de todos os tempos. Começou a ser escrita no início de 1300 e só foi concluída em 1321, somente um pouco antes de o autor vir a falecer nesse mesmo ano.

É um épico com contornos religiosos, principalmente no que se refere à divisão de regiões do pós-vida, compostas por Inferno, Purgatório e Paraíso (também as subdivisões destas e suas finalidades), além das inúmeras alegorias e metáforas encontradas durante toda a obra, que referenciam não apenas aspectos religiosos, mas também políticos.

O poema narra uma viagem do próprio escritor ao além, onde Dante é guiado através do Inferno e Purgatório pelo poeta romano Virgílio e no resto de sua viagem por Beatriz, sua amada. Na história Dante faz essa viagem pelo pós-vida ainda estando vivo, e frequentemente as almas percebiam que ele ainda era um ser vivente entre eles por conta de sutilezas como por notar sua sombra, peso ou por perceberem que ele ainda respirava, e aproveitando essa rara oportunidade conversavam com ele, geralmente com o poeta perguntando sobre seus atos em vida que os levaram aos seus destinos, mas também por lembrarem-se do poeta por tê-lo conhecido enquanto estavam vivos ou mesmo por reconhecer um ser com vida entre os mortos e quererem conversar com alguém tão deslocado dentro do plano espiritual. Algumas pessoas que ele não ia lá muito com a cara, principalmente por conta de questões políticas da época nas quais ele estava envolvido, eram colocadas no Inferno e Purgatório, bem como algumas que ele gostava ou admirava que foram colocadas no Paraíso, mas também aparecem personalidades que ele considerava pecadoras ou de almas nobres, muitas delas importantes figuras históricas reais como governantes, artistas e sacerdotes, embora também houvesse no Inferno criaturas e personagens mitológicos gregos, como centauros, gigantes e o Cérbero.

Interessante que o número 3 permeia todo o livro, afinal são 3 partes e cada uma contendo 33 cantos (O Inferno tem uma a mais, porém é como se fosse mais uma espécie de introdução). Outro número que se repete é o 10, pois no Inferno há nove círculos mais o Anteinferno; o Purgatório conta com sete degraus mais dois antepurgatórios e um Paraíso Terrestre; o Paraíso é composto por nove céus e mais o Empíreo, além da obra ter um total de 100 capítulos (10x 10). Outra curiosidade é que todas as partes terminam com uma mesma palavra: estrela.

Não entrarei em detalhes, pois existe muita coisa a ser dita (muita mesmo!), como a geografia local, os personagens históricos, os mitológicos, cada tipo de condenação e sua pena ou a virtude que redime cada tipo de pecado, etc. Para não estragar a surpresa do futuro leitor da obra que possa se interessar só vou mesmo instigar a curiosidade, uma análise mais aprofundada ficaria gigantesca e daria pra fazer uma pra cada parte da obra, então vou optar por apenas dar um breve panorama de cada uma das partes que compõem o além nos versos de Dante.

INFERNO

“Por mim se vai ao círculo dolente; por mim se vai ao sofrimento eterno; por mim se vai à perdida gente. Justiça moveu meu alto fautor; criou-me a Suprema Potestade, Suma Sapiência, Primeiro Amor. Antes, foram criadas apenas coisas eternas; eu, eternamente existo. Renunciai às esperanças, vós que entrais.”

O Inferno era composto por um Anteinferno, onde ficavam aqueles que não foram aceitos nem no Céu e nem no Inferno, pagando pela sua indecisão, e após este fica o rio Aqueronte, onde o barqueiro Caronte atravessava as almas para os nove círculos infernais: O primeiro deles é Limbo, onde ficam os que não foram batizados; no segundo ficam os luxurioso; o terceiro é reservado aos gulosos; o quarto é o local onde os avarentos e os que gastaram muito em vida pagam pelos seus pecados; o quinto é composto pelos que pecaram pela ira; o sexto é onde ficam os hereges; no sétimo encontram-se os que cometeram violência (contra o próximo, contra si mesmo, contra Deus, contra a natureza e a arte); o oitavo (Malebolge) é o círculo dos 10 fossos que castigam os sedutores, os aduladores, os simoníacos, os adivinhos, os fraudulentos, os hipócritas, os ladrões, os maus conselheiros, os que causaram cisma e intrigas e os falsários; o nono e último círculo é o dos traidores. O nono círculo também onde fica o ponto mais baixo, e também onde está Lúcifer, e é justamente o mais baixo pela queda do mesmo quando este foi expulso do céu.

PURGATÓRIO

“Dizia-me o guia: Não temas. Tranquiliza-te, não está longe o porto seguro. Não entibies; antes alarga o coração; Ao Purgatório, por fim, chegaste; Um muro de rochedos o limita. Aquilo que aparenta ser falha no muro é a entrada.”

O Purgatório é o local entre a salvação e a condenação, onde a alma é purificada de modo a poder entrar no Paraíso. É em partes uma representação que vai contra a do Inferno, que com a queda do anjo rebelde fez-se uma estrutura que afunilaria cada vez mais para baixo, portanto é um local que representa a condenação e a falta de esperança, já no Purgatório os degraus apontam para cima, para a salvação, opondo-se ao anterior e sendo um lugar de esperança, diferencia-se também pelas penas serem temporárias, já que os que ali estão cedo ou tarde entrarão no Paraíso. Ele ficaria em uma ilha, cercada por um enorme oceano revolto. É dividido em dois antepurgatórios, onde no primeiro esperam os excomungados e no segundo os negligentes que se arrependeram tarde. Após estes fica o portão guardado por um anjo armado com uma espada que grava em Dante sete vezes a letra “P”, que representa os pecados, e conforme Dante avança pelos degraus os pecados vão sendo apagados por anjos, podendo ele desse modo passar para o nível seguinte. Cada nível é referente a um pecado capital, em cada um deles os pecadores se purificam para poderem entrar no Paraíso. Nestes sete se purgam: ao primeiro nível, o orgulho; no segundo, a inveja; no terceiro, a ira; no quarto, a preguiça; no quinto, a avareza e a gastança; no sexto, a gula; e no sétimo, a luxúria. Além desses, separado por uma parede de fogo, fica o Paraíso Terrestre.

PARAÍSO

“Ó esplendor de Deus – que ao meu olhar antecipou o triunfo do verdadeiro reino -, inspira-me para que meus versos reflitam o que vi! Ali reside a luz a tornar o Criador visível para as criaturas que encontraram a felicidade ao contemplá-Lo.”.

O sistema geocêntrico era a base para toda arquitetura da parte da concepção de Dante para o Paraíso, em que a Terra estaria imóvel e os planetas (no caso de Dante nove “céus”) girariam ao seu redor. O primeiro dos nove céus era a Lua, onde se encontravam os bem-aventurados que não cumpriram seus votos; o segundo céu, Mercúrio, estavam aqueles que realizaram boas obras, mas que o fizeram visando mais a honra e fama do que por amor a Deus; o terceiro céu, Vênus, era o lugar dos que muito amaram; o quarto céu era o Sol, onde estavam os grandes teólogos; o quinto céu era Marte, lá ficavam aqueles que combateram em nome da fé; o sexto céu, Júpiter, é onde se encontram as almas daqueles que personificaram a justiça; o sétimo céu, Saturno, era onde estavam os que se dedicaram a contemplação em vida; o oitavo céu é o das Estrelas Fixas, onde Dante se depara com Cristo e a Virgem Maria, e também é interrogado por são Pedro sobre a fé, por São Tiago na esperança e por São João acerca do amor; o nono céu, o Primeiro Móvel, pode-se ver o ponto luminoso em torno do qual giram os nove céus, e onde se pode contemplar os nove anéis que o circundam, formados por coros de anjos (Serafins; Querubins; Tronos; Dominações; Virtudes; Potestades; Principados; Arcanjos; Anjos). Por fim encontra-se o décimo céu, o Empíreo, que é imaterial, é “luz pura, luz espiritual, plenitude de amor, amor ao verdadeiro bem, bem da completa alegria, alegria que sublima todas as dores.”. O Empíreo é formado pelos bem-aventurados cujas almas formam uma espécie de rosa. São Bernardo, último guia de Dante, o leva à presença da Virgem Maria, que intercede pelo poeta que enfim contempla Deus, que aparece sob a forma de três círculos que representam a Santíssima Trindade.

Considerações finais

Esse livro sobreviveu ao teste do tempo e foi fonte de inspiração de muitos outros artistas nas mais diversas composições de obras ao longo dos séculos, e ainda hoje essa visão do pós-vida continua influenciando obras como pinturas, jogos, livros e até mesmo desenhos animados japoneses de guerreiros com armaduras inspiradas em constelações, e isso só prova o caráter universal e até atemporal da obra, apesar de ser pautada em uma visão medieval de mundo espiritual.

A Divina Comédia serve como um grande exemplo de quebra daquela falsa ideia implantada pelos iluministas e renascentistas de que a Idade Média foi uma “idade das trevas” onde toda a beleza, a criatividade e o pensamento artístico foram destruídos pela superstição. A verdade é que cada período se preocupa com as questões vigentes da época, procurando satisfazer as necessidades filosóficas, artísticas, morais, espirituais e até mesmo materiais daquele tempo, e cada uma vai ter uma abordagem diferente. Além das magníficas catedrais e as universidades, essa que é uma das maiores obras literárias da humanidade são exemplos que pavimentam essa ideia de que apesar do pensamento religioso da época, esta foi sim uma época de acontecimentos importantes artisticamente até mesmo intelectualmente, apenas com uma perspectiva de mundo diferente.

Uma dica é procurar algumas edições que contém as magníficas ilustrações de Gustave Doré, que também é conhecido por outras sensacionais ilustrações de vários outros livros, e ajuda muito a compreender e a mergulhar mais no imaginário fantástico de Dante através do pós-vida. Vários outros ficaram muito famosos por representar artisticamente a obra, como o caso do pintor italiano Domenico di Michelino, que retratou a obra em uma das paredes da Catedral de Santa Maria del Fiore, que fica em Florença, cidade de Dante.

PS: Acabei postando a resenha da Divina Comédia no fim de maio justamente por fazer 750 anos do nascimento do poeta, já que se acredita que ele tenha nascido nesse período em 1265, embora não haja um consenso de uma data que seja comprovada de fato e tanto o ano quanto a própria data de nascimento são suposições baseadas nas suas obras, como a frase que inicia a própria Divina Comédia: “Ao meio da jornada da vida” (por volta dos 35 anos), ou no Canto XXII do Paraíso onde ele diz: “[…] eu vi e me senti integrado na constelação (Gêmeos) que segue a do Touro. Ó gloriosas estrelas! Ó lume impregnado pela alta virtude, a que reconheço dever o meu engenho, valha ele o que valer! De vós nascia e em vós se escondia esse (Sol) que é o gerador de toa a vida mortal, quando principiei  a respirar o ar da Toscana.”, isso coloca o seu nascimento entre 18 de maio e 17 de junho.

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