It’s alive! – Uma crítica de Frankenstein ou o moderno Prometeu

Sabe aquele monstro verde com parafusos no pescoço? Aquele mesmo que fala somente através de grunhidos e que foi criado por um velho cientista louco através da eletricidade de um raio que entrava pelo teto de seu castelo, tudo isso aos gritos de It’s alive!” ? E se eu dissesse que no livro ele era bem diferente dessa imagem que ficou eternizada na cultura popular e que é até hoje usada em filmes e desenhos?

Desde já vou avisando que contém spoilers, se você que está lendo isso ainda não leu o livro e não quer que sejam revelados alguns acontecimentos, bem, sugiro que pare aqui mesmo e vá ler outra postagem. Se você não se importa ou acha que isso na verdade alimenta a vontade de ler essa história então vamos continuar.

Para início de conversa creio que devo começar por como o monstro é chamado, pode ser chocante para quem não tenha lido o livro, mas a criatura não é o Frankenstein, esse na verdade é o nome do seu criador, não tendo um nome é apenas chamado de “criatura”, “diabo”, “monstro” e outros apelidos não tão agradáveis assim. Ele foi rejeitado pelo seu “pai”, assustado com a monstruosa criatura quando esta ganhou vida, não tinha nome porque não lhe foi dado nenhum, e isso só aumenta ainda mais uma das principais características da obra, a busca pela identidade. Ele é um ser abortado, não tendo nem ao menos a menor compreensão do mundo, e inicialmente nem da sua própria aparência horrível e de quanto era incomum, de fato, ele aos poucos aprende a usar os sentidos para tentar entender um mundo novo ao qual acabou de vir, mundo esse que o nega por ser diferente e o julga como monstro. Ele tenta se ajustar querendo ser aceito pela humanidade, tentando um lugar em que ele pudesse se encaixar e ser feliz, e a falta de nome para o “monstro de Frankenstein” só deixa mais claro que ele está completamente deslocado do mundo humano, nem ao menos é considerado humano, é um monstro apenas aos olhos da sociedade. É interessante acompanhar a narrativa da criatura sobre sua vida e suas experiências com outras pessoas e pensar em quem de fato é o monstro nessa história, ele ou os próprios seres humanos.

Bem, falemos então de Victor Frankenstein, que em sua infância e juventude era fascinado por alquimia e pela ideia de criar vida, mas deixou de lado os livros de alquimistas famosos quando ingressou na Universidade por conta de seus professores que lhe abriram os olhos para as modernas ciências naturais das quais ele se interessou principalmente pela química e posteriormente por anatomia. Isso mostra bem uma mudança de perspectiva que ocorreu também dentro da literatura nessa época onde procurava-se explicar os fatos narrados baseando-se mais no pensamento científico, passando da fantasia pura para a ficção científica, aliás esse livro é considerado o primeiro desse gênero. Vale lembrar que ele criou a criatura ainda quando estava na universidade, e era bem jovem quando fez isso, estando em um laboratório que não tinha o teto aberto para captar um raio para dar vida ao monstro. Bem, outra surpresa nesse ponto, ele não ganhou a vida com eletricidade, na verdade não são esclarecidos os métodos que foram usados para trazer à vida pedaços de corpos que já tinham experimentado a morte reconfigurados em uma criatura de grande estatura e de aparência assustadora. Por volta de 1790 Luigi Galvani realizou um experimento em que ele conseguiu que os músculos de uma rã morta se contraíssem por meio de eletricidade estática, pensando haver uma eletricidade animal se formulou um pensamento na época que essa seria uma espécie de “fluído vital”. Isso levou a escritora Mary Shelley a se inspirar nesses estudos para “dar vida a sua criatura” (o seu livro), mas em nenhum momento no livro é dito que o monstro de Frankenstein foi criado por meio de eletricidade. Foi mal aí galera, mas não acontece o famoso “It’s alive!”, e nem o criador ficou feliz por isso, na verdade ficou enojado e assustado com o resultado de sua busca por compreender os princípios da vida e conseguir criá-la artificialmente.

Esqueça também essa imagem de um monstro lento e até burro, no livro além de possuir uma extraordinária agilidade ele é bem eloquente e pode-se dizer também que era bem inteligente, pois aprendeu sozinho a falar e a ler apenas observando alguns humanos realizando essas atividades. Também esqueça um monstro insensível, este até tinha um bom coração, embora cego pela rejeição e se sentido abandonado pelo seu “pai” e pelo mundo. Era bom, mas também poderia tomar outras atitudes, como quando tomado de fúria cometeu alguns assassinatos para vingar-se de seu criador e também como intimidação para motivar o Victor para que lhe fizesse uma companheira feminina, já que sendo ambos monstruosos só teriam um ao outro nesse mundo e não se rejeitariam, ele enfim deixaria de ser único e solitário. Diante da negativa de Frankenstein, que não conseguia mais uma vez dar vida a outra criatura semelhante por sentir medo e repulsa dessa tarefa, o monstro tirou a vida daqueles que ele mais amava no mundo, dando início a uma perseguição que se estenderia até o Polo Norte aonde a morte chegaria a Frankenstein, momento no qual o monstro demonstraria que sentia muito remorso e agonia por tudo o que cometeu ao ver seu criador morto. Revelou que tudo o que fez foi pela inveja da felicidade de Victor Frankenstein enquanto a ele mesmo só a infelicidade era permitida. Ele era cria do abandono, de estar só em uma sociedade que o rejeitava e o odiava, completamente jogado, descartado, deslocado, sem identidade, sem pertencer a nada. Ele no fundo era apenas uma criatura em busca de afeição e de seu lugar no mundo. O monstro então diz que irá fazer uma pira funerária para seu criador e ele mesmo, para que assim nada possa sobrar de seu corpo e para ninguém conseguir encontrar vestígios que possam levar a outros a criar criaturas como ele. Ele nasceu sem maldade ou inclinação para fazer qualquer ato ruim, seu bom coração conheceu o mal pelos humanos e se corrompeu pela rejeição e pela falta de perspectiva de encontrar qualquer felicidade na vida desgraçada que lhe foi dada. Nem bom nem mau, não um monstro, ele era bem humano. Para Jean-Jacques Rousseau o homem nasce bom e a sociedade o corrompe”, e é mais ou menos esse ponto na história da criatura, mas a corrupção veio não necessariamente de estar em um meio social, também se deu por estar excluído de um.

Frankenstein é uma dessas obras que vencem o tempo e se tornam clássicos não só pela qualidade da escrita como da história em si, que ainda continua atual, afinal o desejo de criar ou prolongar a vida acompanha o homem desde o alvorecer da humanidade e ainda não perdeu-se o fascínio e desejo por alcançar esse objetivo. Fala também do preconceito e do pré-julgamento que as pessoas fazem, aquele velho papo de julgar um livro pela capa, e ainda entra no tema do preço a se pagar pela ambição. É interessante também como o herói e o vilão não são personagens de moral totalmente definida e firme, de fato de uma hora para outra você acaba achando que um é o vilão e depois muda essa visão e pode ser que ela mude novamente ao decorrer da história. Se você ainda não leu esse clássico tome vergonha na sua cara e procure ler, certamente não vai se arrepender dessa decisão, diferente de Frankenstein que se arrependeu das que tomou.

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