Crítica do livro Utopia

Como no primeiro post do blog eu fiz uma crítica de uma distopia resolvi nesse segundo fazer uma crítica do oposto, uma utopia, e qual melhor livro para isso se não aquele que inventou esse termo? Talvez ao lerem essa crítica possam achar que sou um tanto pessimista por acreditar que possamos viver em uma distopia, mas sou bem cético quanto a vivermos em uma utopia, mas apresentarei os pontos abordados no livro e os motivos de não acreditar que eles sejam tão aplicáveis assim.

Antes de qualquer coisa, deixo claro que é bom livro, apesar de ser muito simples e até deixar uma impressão de extrema artificialidade levando em conta tipo de ser humano abordado em Utopia não existe, mas que mesmo assim levanta bons questionamentos. Uma sociedade perfeita é construída por pessoas perfeitas e com meios de existência perfeitos, infelizmente o mundo em que vivemos é composto pela escassez e por seres nem de longe tão perfeitos assim. As sociedades se formam como tal para que um grupo de pessoas possa sobreviver as adversidades, o que se torna mais fácil em grupo, embora o convívio seja problemático por vezes justamente pelo ser humano zelar muito pelo bem estar pessoal, e isso é um traço do puro instinto de sobrevivência e autopreservação. O livro me lembrou em algumas partes justamente uma distopia, Admirável mundo novo de Aldous Huxley, acho que foi pela artificialidade dos habitantes da ilha. Sociedades perfeitas, algumas delas em ilhas justamente para colocá-las em um aspecto de isolamento são muito comuns nos mitos antigos também como Lemúria, Atlântida, Shangri-lá, Hy Brasil, e até o próprio Éden e todas elas eram colocadas como algo quase inatingível, é a morada dos valorosos e por serem divinas também não possuem os problemas que existem nas terras dos mortais. É um desejo humano que se apresenta desde sempre, mas na prática é algo praticamente inviável se analisado racionalmente e sem deixar as paixões transparecerem, mas não custa nada sonhar, embora eu tenha medo de utopias, elas são prometidas, mas não é raro de ver em seu lugar ser entregue na verdade algo mais próximo de uma distopia. Sonhos vendem e podem ser usados para dominação tanto quanto o medo.

Em uma parte do livro aparece a frase : “Aquele que tem a certeza de que nada faltará jamais, não procurará possuir mais do que é preciso.”, infelizmente em nosso mundo a escassez sempre se fez presente, ainda mais com a atual superpopulação do planeta e a densidade demográfica só tende a aumentar, mas isso também fez o ser humano buscar impulsionado pela força das necessidades, alimentando a criatividade e a inventividade, e com isso achar novos métodos de produção e obtenção de recursos. Não podemos ter a certeza de nada faltará jamais e o planejamento para o futuro é algo que é necessário a qualquer sociedade, afinal as crises não acontecem apenas por ordem humana, embora essas não devam jamais ser ignoradas, mas também por parte de desastres naturais e outras eventualidades. Uma sociedade tão habituada com a abundância e tamanha ordem poderia se reerguer com facilidade em uma crise dessas, mas também poderia ser um caos e o fim dela se não soubessem como viver com pouco. A crise também une as pessoas, coloca o que há de melhor nelas para fora, como tantas vezes visto, mas também faz aflorar o oportunismo e outras atitudes egoístas nas pessoas, mesmo a sociedade sem esses tipos de sentimentos eles poderiam surgir em um momento desses. No livro todos são perfeitos e dificilmente isso aconteceria, mas na realidade não somos e passamos longe disso.

Interessante também é a ideia do bom selvagem, que ganharia força anos depois com o romantismo sobre o homem que não foi maculado pelos vícios da sociedade moderna. Até hoje alguns ainda apostam nessa tese, principalmente em relação aos índios aqui viviam em paz antes dos europeus chegarem, mas a História prova que não é bem assim, até mesmo os índios do nosso continente viviam em guerras e disputas por territórios, com seus Impérios e conquistas, com escravos e tributos, com a mesma sede de poder. A verdade nua e crua é que o ser humano é o mesmo ser humano em qualquer parte do mundo, independente de cultura, credo ou criação de qualquer tipo. Somos um só, com aspectos positivos e negativos, embora esses variem de povo para povo com cada sociedade estabelecendo o que é considerado bom ou ruim de acordo com suas necessidades e visões de mundo, ditando e criando limites morais e legais. No livro não são propriamente índios do continente americano, mas pessoas dessa ilha fictícia chamada de Utopia, que significa justamente “lugar que não existe”. São muito evoluídos como sociedade como já deu para perceber, mas que fogem do padrão europeu de civilização da época, e alguns europeus buscavam em outros continentes o ideal de civilizações mais simples, mais ligadas à natureza e por isso mesmo com menos vícios, e esse livro mais do que uma idealização de uma sociedade perfeita é uma crítica a sociedade da época.

Quanto ao desprezo pelo ouro e prata pode-se achar isso mais real já que as coisas tem valores subjetivos, elas valem o que as pessoas acham que vale, e isso se dá por qualquer motivo, raridade, dificuldade de fabricação, apego afetivo, utilidade ou por simples vontade de possuir. O próprio ouro é louvado pela cor e brilho que se assemelha ao Sol, o primeiro deus cultuado pela humanidade, e também pela raridade, dificilmente é algo que causaria inflação por haver excesso e consequente desvalorização do ouro. Apenas para exemplificar rapidamente, algumas moedas eram “falsificadas” pelo Estado na antiguidade quando se colocava menos ouro na moeda, já que a moeda valia o que pesava e isso causava inflação. De qualquer forma se não fosse por ouro e prata poderia ser por qualquer outra coisa, mas como os habitantes da ilha já tem o que precisam e não tem necessidades é aceitável, mas ainda que eles pareçam ser avulsos a qualquer tipo de desejo, o que já é muito ficcional. No mundo real o desejo se apresenta e nem sempre é por simples ganância, e mesmo sendo por algum tipo de ganância poderia ser algo “mais leve” como o desejo de colecionar, que antes de mais nada é um hobbie e pode ser por qualquer coisa, desde carros até pedras sem nenhum valor que pode-se achar aos montes pelo chão. O próprio dinheiro é uma ilusão, o valor é subjetivo como comentei, ele é apenas uma forma que as pessoas acharam de facilitar relações de troca. Antes de papel-moeda já foi usado sal, por exemplo, e hoje em dia o dinheiro é praticamente virtual, créditos e números na sua conta, dinheiro cada vez mais raro de se ver fisicamente. Falar que o dinheiro é a raiz de todo mal é uma razão meio simplista, ou mesmo que é a ganância humana também o é, já que é um sentimento muito complexo e que se apresenta de muitas formas, mais leves e mais graves. O ser humano é muito complicado em todos os sentidos imagináveis. Essa é uma forma mais romântica de se imaginar, embora não seja a verdade absoluta, é um traço bem comum do pensamento ocidental que é geralmente voltado para o maniqueísmo, de algo ou ser de todo certo ou de todo errado, embora raramente as coisas sejam assim.

Enfim, é uma boa fantasia. É bom imaginar o mundo de forma utópica, embora o que as maiores probabilidades apontam mesmo é para algo mais distópico no nosso mundo atual, principalmente quando nos vendem utopias. Quando a esmola é muita o santo (não o Thomas Morus, que é santo da Igreja Católica) desconfia, já dizia o saber popular. Há uma frase no livro que diz tudo: “[…] se vossos esforços não puderem servir para efetuar o bem, que sirvam ao menos para diminuir a intensidade do mal; porque tudo só será bom e perfeito, quando os próprios homens forem bons e perfeitos”. O problema é esse: Quando seremos perfeitos? Provavelmente nunca. É pessimista de minha parte dizer isso, mas também é realista. É bom mudarmos e tentarmos evoluir como sociedade, é o mais indicado inclusive, mas a ideia do livro ainda é por demais fantasiosa se colocada com o que é o ser humano, essa criatura que foge muito do ser semi-divino que sempre imaginamos. Nós nos esquecemos de que somos animais e vivemos por instinto tanto quando as demais criaturas desse mundo. Temos a consciência e a inteligência, mas temos o instinto gritando em nós também. Certamente serei chamado de pessimista por alguns por essa análise, outros talvez dirão que não acredito no ser humano, o problema é que justamente acredito, mas conheço não somente a capacidade construtiva, também conheço e não ignoro a capacidade destrutiva do homem. Talvez até nisso haja algum bem, afinal são os conflitos que criam e não a conformidade. É a divergência, o debate, os opostos que se complementam que fazem surgir novas ideias. O espaço criado quando uma árvore velha cai na floresta abre espaço para novas mudas crescerem. O espírito humano é o que é por ser inquieto e às vezes isso é excelente e em outras é péssimo.

Não deixo de pensar em uma parte do filme Matrix onde comentam que os humanos rejeitaram a primeira Matrix por esta ser feita para parecer uma utopia e ela falhou exatamente por isso, porque no fundo sabemos que as coisas quando estão muito boas é porquê algo de muito errado está acontecendo. Não sei se houvesse realmente esse tipo de sociedade se a abraçaríamos ou se a rejeitaríamos.

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Um comentário sobre “Crítica do livro Utopia

  1. Pingback: O Pessimismo dos Mundos Distópicos | Foco de Resistência

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