Crítica do livro 1984 : O Grande Irmão zela por ti

livro-1984-george (517x800)Nesse primeiro post do blog não queria começar com um livro qualquer ou mesmo fazer uma resenha baseada em apenas aspectos técnicos, até porque o livro escolhido merece algo além do que apenas isso. Vou destrinchar um pouco alguns conceitos, certamente não todos, já que a profundidade do livro é gigantesca, mas o objetivo e o foco da postagem é ver o porquê do fictício mundo distópico de 1984 não ser assim tão fantasioso e distante da nossa realidade, tanto que já ocorreram fatos parecidos antes do livro ser escrito que inspiraram o autor George Orwell (pseudônimo de Eric Arthur Blair), mas também aconteceram coisas similares as descritas na obra após ele ser publicado.

A espionagem lembra bastante a Stasi, a polícia secreta da Alemanha Oriental, dizia-se que havia 1 espião para cada 63 habitantes, mas em 1884 todos são espiões do Estado, sempre dispostos a relatar qualquer indício que pensem ser contra o G.I., até mesmo incentivando as crianças desde cedo a esse trabalho, na Stasi também haviam muitos espiões menores de idade. Vale a pena pesquisar o que a Stasi fazia e ver o quão próximo era do mundo de 1984, o interessante é que ela existiu justamente em 1984, na verdade ela durou do começo dos anos 50 até o fim dos anos 80.

Interessante que os nomes dos ministérios são opostos ao que realmente são, reforçando a ideia do duplipensar, dos pensamentos antagônicos, pois seus nomes sempre denotam coisas positivas, a fim de criar uma ilusão na população, já que é conhecido que o ser humano aceita melhor as informações que são colocadas de forma positiva, do que aquelas que são entregues de uma forma negativa, como quando as pessoas se negam a olhar as imagens nos maços de cigarro. É portanto mais fácil das pessoas aceitarem a frase “Se você parar de fumar, pode evitar alguns problemas de saúde”, do que “Se você continuar fumando vai adquirir vários problemas de saúde e piorar sua qualidade de vida”. Por isso esses nomes mais agradáveis, porém totalmente contrários ao que são na verdade. O Ministério do Amor se encarrega das torturas, o da Verdade reescreve o passado, o da Fartura se ocupa com a escassez e o da Paz com a guerra. Um dos lemas do Partido diz o seguinte: “Quem controla o passado controla o futuro e quem controla o presente controla o passado”, lembra uma frase bem famosa que certamente o leitor já deve ter escutado: “Uma mentira repetida mil vezes torna-se verdade”, o que o leitor talvez não saiba que o autor dessa frase foi Joseph Goebbels, o ministro da propaganda nazista.

O Partido também não só reescreve a História, mas “reescreve” os seres humanos, cria pessoas sem sentimentos, sem consciência, vazios e prontos para serem preenchidos com o que o Partido deseja e acaba com a noção de felicidade, de amor, de desejo, da compreensão do mundo através das artes, ciências ou outras coisas que levem ao questionamento. Medo e ódio são plantados desde cedo e alimentados a fim de separar mais as pessoas em níveis hierárquicos. Os estrangeiros devem ser mortos a todo custo, pois todos são essencialmente perversos. Eles não são pessoas, são inimigos.

O isolamento provocado pelo ódio a qualquer estrangeiro também é um ponto importante, pois dessa forma não só é direcionada a eles toda a energia e carga de frustração, de rancor, que poderia ir ao G.I., e produzir algum tipo de rebelião, quanto não ter com o que comparar sua situação de vida ou mesmo criar empatia ao enxergar no outro não um mal a ser combatido ou um conceito a ser derrubado, mas um outro ser humano igual a si mesmo. Qualquer coisa que deixe as pessoas menos suscetíveis ao enquadramento, ao padrão de pessoa que se deve ser é ruim ao partido, sendo todos iguais não há criação de ideias, não há perigo, não há contradições que leve o sistema a sua ruína. Os momentos de maior evolução na História humana foram justamente aqueles onde pessoas de raças, credos e opiniões diferentes se encontraram e puderam trocar ideias e desenvolvê-las. Não há espaço para isso nesse mundo. A falta de algo com o que comparar devido a esse isolamento e as constantes mudanças do passado, passa sempre a ideia que tudo está melhor atualmente, mesmo que seja perceptível que não está, mas isso não é nada que um duplipensamento não resolva.

Quanto a novilíngua, ou dependendo da edição, novafala, é um ponto chave para entender esse mundo distópico de 1984. Quando a língua empobrece, ficamos mais limitados ao passar informações e consequentemente em recebê-las também. Não temos mais força de expressar exatamente o que queremos, mesmo que possamos compreender algo, não podemos transmitir aquilo exatamente como desejamos, e isso interfere em como as informações podem ser usadas e transformadas. O mundo de 1984 é um mundo estático.

Não havia mais leis, nada era mais ilegal, ou seja, dessa forma o Estado pode acusar o cidadão de qualquer crime, pois para o Estado, qualquer coisa pode ser passível de punição e isso acaba colocando o povo em estado de alerta, evitando fazer qualquer coisa que pudesse parecer prejudicial ao Estado. Não existem leis, mas ainda existe o poder. Sem leis tudo pode ser ilegal, não há espaço para questionar o que o Estado deseja, toda a culpa e a possibilidade de crime estão na cabeça das pessoas que acabam se policiando, evitando ter esses pensamentos para sua própria segurança. Os crimes ideológicos tem até um nome: crimeideia. A ignorância não é uma benção, a ignorância é força.

Um dos pontos mais legais do livro refere-se aos “Dois minutos de ódio”. Emmanuel Goldstein, figura para o povo colocar toda a carga de sentimentos negativos que estavam neles, desse modo evita-se que essa energia pudesse ser direcionada para eventuais revoluções ou quaisquer revoltas, também nota-se que, a exemplo do Grande Irmão, era uma figura com rosto, uma pessoa, pois desse modo é mais fácil sentir antipatia, empatia ou qualquer outro sentimento. É mais fácil sentir algo por uma pessoa do que por uma ideia/partido/Estado/etc. Ele lembra bastante a figura de Trotsky, que também foi chamado de “inimigo do povo” durante o regime de Stálin. Também coloca-se o povo em um estado eterno de vigilância, medo e obediência, com o acréscimo da união, já que é uma tática de guerra bem conhecida arrumar um inimigo externo para unir a população, mesmo com todas as diferenças e divergências que o povo possa ter, ou seja, criam um problema externo para solucionar esse problema interno. É também importante notar que isso ocorre junto a multidão, já que quando as pessoas estão em grupos a consciência tende a ser “diluída”, passa-se a agir não como um indivíduo, mas como uma célula da massa. Quem nunca ouviu falar de uma pessoa que na vizinhança era tida como boa, mas em uma torcida organizada, partido político ou qualquer outra massa de pessoas dentro de um grupo com um fervoroso apego a algo que representa esse grupo, que se envolveu em uma briga e cometeu algum ato violento e covarde? Vê-se isso frequentemente na TV, exatamente pelo sentimento de culpa se diluir na multidão. Não é você que bateu, foi o grupo.  Por não pensar, mas agir de acordo com o calor do momento é que torna as multidões mais fáceis de se controlar e enganar, não à toa fazia-se, e continuam fazendo, grandes comícios e reuniões com o povo para discutir assuntos importantes, desde Hitler, que usava bastante disso, até mesmo candidatos a cargos políticos atuais em busca de votos, ou até mesmo líderes religiosos. Falando em religião, o Grande irmão também direcionava para si a figura de um líder messiânico, e salvador, em determinado momento do livro uma personagem ora para ele, e isso acontece em ditaduras onde acabam banindo religiões (sejam quais forem e por qualquer motivo) para direcionar esse fervor religioso ao partido ou ao líder.

A guerra constante também é algo que é visto em muitas nações. A Alemanha nazista tinha esse conceito, os EUA também sempre estão envolvidos em uma guerra ou outra, a Coréia do Norte nem se fala, vive de bravatas e ameaças contra meio mundo. Isso como dito anteriormente une o povo através do medo e desse modo o controle é fácil, tenha visto as leis de segurança nacional que os EUA fizeram após o 11 de setembro, como o “ato patriótico”, restringindo os direitos civis, com isso podendo espionar o povo, prender por tempo ilimitado estrangeiros suspeitos de terrorismo, e muitas outras coisas que o povo acharia absurdo antes dos atentados, mas que recebeu o aval da população por conta da comoção pós-2001.

É sempre bom ler algum livro que lhe faça pensar, questionar e até mesmo procurar pesquisar e se informar mais sobre qualquer assunto, não à toa esse é um dos livros mais importantes escritos nos últimos tempos.

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2 comentários sobre “Crítica do livro 1984 : O Grande Irmão zela por ti

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