Tigana: A Lâmina Na Alma – Guy Gavriel Kay

tiganaPublicado originalmente em 1990 como volume único, Tigana, do autor canadense Guy Gavriel Kay, acabou por ser dividida em duas partes aqui no Brasil, uma escolha a qual não me agradou muito e sobre a qual falarei mais adiante, porém faz-se necessário enfatizar que as minhas impressões acerca da obra se baseiam totalmente nessa primeira parte, Tigana: A Lâmina na Alma. Continuar lendo

Sonho Febril – George R. R. Martin

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Hoje em dia é impensável ouvir o nome de George R. R. Martin sem imediatamente o associar com livros de fantasia medieval recheados de reviravoltas e de personagens com moral ambígua, e este pensamento já está tão enraizado que pode tornar um pouco estranho para quem não está familiarizado com os outros trabalhos do autor saber que Martin já escreveu um livro sobre vampiros ambientado nos Estados Unidos em meados do século XIX.  Isso mesmo, vampiros.

Sonho Febril foi publicado originalmente em 1982, ou seja, quase 15 antes de A Guerra dos Tronos, o primeiro livro da consagrada série As Crônicas de Gelo e Fogo, e é apenas o terceiro romance, portanto não vão esperando um livro ao mesmo nível dos demais situados em Westeros, muito embora ainda possamos ver neste livro bastante sangue, pessoas com cabelos tão claros que chegam a serem brancos e muitas descrições de pratos de todos os tipos.

fevre_dream_2A história Sonho Febril tem início em 1857 quando o renomado capitão de navios a vapor Abner Marsh, praticamente falido após uma série de infortúnios que o levaram a perder quase todos os navios de sua “Companhia Fevre de Vapores Fluviais”, recebe uma proposta praticamente irrecusável de sociedade de Joshua York, um misterioso aristocrata, que não apenas iria investir na companhia como também iria realizar o sonho do capitão Marsh de construir o maior, mais rápido e luxuoso barco a vapor que já singrou pelas águas do Mississippi. Joshua, no entanto, estipula algumas condições para que o negócio seja fechado entre os dois: ser o co-capitão da nova embarcação, com Abner encarregado de toda a expertise necessária para navegação do mesmo, além de jamais ter as suas decisões e os seus hábitos peculiares questionados. Apesar da desconfiança de Abner pela proposta suspeita, a chance de realizar o sonho de sua vida fala mais alto e ele aceita os termos impostos por Joshua.

Finalmente construído, Abner decide nomear o navio como Fevre Dream, apesar do nome soar pouco auspicioso aos ouvidos de Joshua, e após recrutar a tripulação necessária o majestoso navio ganha as águas, recebendo toda sorte de passageiros e carga. Apesar dos curiosos hábitos de seu sócio, tais como evitar sair à luz do dia e estar sempre cercado de amigos tão estranhos quanto, que falavam algum tipo de linguagem estrangeira, o início da jornada não poderia ser melhor e Abner Marsh acaba por verdadeiramente fazer amizade com seu sócio, contudo à medida que as atitudes cada vez mais caprichosas e sem aparente motivo de Joshua começam a atrasar o navio e a prejudicar a reputação do Fevre Dream, Marsh se vê obrigado a quebrar o juramento e a procurar saber mais sobre o que motiva esse comportamento e qual foi o verdadeiro propósito de Joshua York ao constituir sociedade e mandar construir o maior navio a vapor do Mississippi.

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É bem diferente das demais histórias de vampiros que li ou assisti em outras mídias, e como uma pessoa que não é lá muito chegada no tema devo dizer que Sonho Febril me surpreendeu positivamente. O clima de mistério e misticismo que o Sul dos Estados Unidos evoca também combina bastante com o tema e faz desse um ótimo cenário, tanto pelas descrições de cidades que crescem e vibram com uma vida própria e ao mesmo tempo também são sujas e degradadas, que exprimem bem essa dualidade que Joshua vê na raça dos vampiros entre aparência e a forma com que vivem, quanto pela própria época de mudanças, onde o novo toma lugar do velho, mas tão logo também se deteriora e se torna obsoleto.

Um dos pontos mais interessantes do livro fica por conta da própria forma com que o interessante o Martin desconstrói e reestrutura a própria mitologia do vampiro, brincando com todos os clichês, alterando a imagem tecida pela cultura pop e pelo próprio folclore para dar vida a seu próprio tipo de vampiro, alguns inclusive ironicamente acreditam nas lendas em tornos deles próprios, mas que são uma raça diferente da humana, com uma fisiologia própria que se desenvolveu à parte da raça humana.

O que mais chama a atenção nessa reinvenção toda é fato dos vampiros, ou melhor, “o povo da noite”, não terem desenvolvido uma cultura própria, preferindo tomar emprestado a desenvolvida pelos humanos, sendo colocados como uma raça que não tem uma capacidade de criar, tendo o único traço de uma formação de uma tradição própria a crença em um messias, conhecido como “Rei Pálido”, e uma terra prometida que seria uma cidade subterrânea, algo que deu um tom bem próprio aos vampiros do Martin.

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Não há tanta complicação dos jogos de poder e uma miríade de personagens, a ambiguidade moral tão conhecida de seus personagens também não é tão presente e há uma linha mais clara entre o bem e o mal, com as questões morais mais focadas no lado dos vampiros dentro da forma como enxergavam os humanos baseados na força e na fraqueza que separa os mestres dos escravos, porém ao mesmo tempo é lembrado a todo o momento que os próprios humanos se aproveitam e tratam como gado os seus semelhantes, lembrando que a escravidão era vigente na época nos EUA e que em 1861 estados do Sul, que eram escravagistas, entrariam em conflito contra o Norte, no que ficou conhecida como a Guerra Civil Americana, também chamada de Guerra de Secessão, deixando claro que os humanos também são capazes de atos tão monstruosos e vis quanto os vampiros, que em alguns casos também são mostrados como nobres e dispostos a encontrarem uma coexistência pacífica entre as duas raças.

Para quem quer ver algo do Martin que fuja de uma fantasia medieval ou da ficção científica esse livro é uma das melhores escolhas possíveis, bem como para ler algo dentro do gênero fora dessa linha de vampiros brilhantes adolescentes de hoje em dia. Não chega a ser tão fantástico e de tirar o fôlego quanto algum outro da série mais famosa do Martin, mas é ainda assim um livro muito bom.

 

A Cor da Magia – Terry Pratchett

a_cor_da_magiaTente imaginar uma grande tartaruga. Na verdade tente imaginar uma tartaruga não apenas grande, mas extraordinariamente estonteantemente monstruosamente inacreditavelmente grande, bem, imagine então uma tartaruga extraordinariamente estonteantemente monstruosamente inacreditavelmente grande que viaja pelo universo carregando em seu colossal casco quatro elefantes gigantescos que, por sua vez, sustentam sob seus ombros um mundo inteiro em formato de disco, pois bem, esse é o mundo de Discworld. Neste mundo vivem criaturas fantásticas, além de deuses, magos e heróis, embora talvez eles não sejam exatamente aquilo que você pensa quando se fala em deuses, magos e heróis…

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O Príncipe De Westeros E Outras Histórias – George R. R. Martin & Gardner Dozois

Principe_de_Westeros_lombada25mm_Final.inddO Príncipe de Westeros e outras histórias é uma antologia de contos de diversos autores organizada pelos escritores George R. R. Martin e Gardner Dozois, cuja proposta é a de apresentar histórias que girem em torno de personagens de moral ambígua, aqueles que seguem mais a seus instintos e desejos do que a ideais altruístas. São histórias protagonizadas por canalhas, mentirosos e cafajestes de todos os tipos: ladrões astutos, golpistas que dominam a arte do logro, vigaristas e impostores ardilosos, além de malandros de bom coração (ou nem tanto). Aqueles personagens que podem tanto ser heróis quanto vilões que transitam entre a linha tênue que separa o bem e o mal, carregando o charme de serem mais críveis sem estarem presos a aquela artificialidade do maniqueísmo. Aqueles personagens que mesmo não fazendo o que é certo acabam gerando alguma simpatia por serem astutos e sagazes.

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O Dragão Renascido (A Roda do Tempo Vol.3) – Robert Jordan

O_Dragão_RenascidoE chegamos ao terceiro volume da série de livros de fantasia épica A Roda do Tempo, escrita pelo autor americano Robert Jordan e finalizada em 14 volumes. Devo dizer que estava com as expectativas altas em relação a esse livro após a leitura de O Olho do Mundo e A Grande Caçada (o primeiro e o segundo volume, respectivamente) dado forma primorosa com que a história foi ganhando corpo e evoluindo página a página, o que faz com que qualquer um perceba que essa de fato é uma série que faz jus as inúmeras críticas positivas que a colocam como uma das maiores e mais célebres séries de fantasia do mundo.

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